Semana passada estávamos voltando da escola, e a Luiza, no auge dos seus 5 anos, me falou que gostava de, literalmente, todas as cores. Sim, literalmente. Eu, curiosa com a origem daquele vocabulário, perguntei para a Lulu de onde ela conhecia aquela palavra. Ela então me olhou com algo entre desdém e graça e respondeu:

  Da minha cabeça, ué!

Enquanto isso, na cadeirinha ao lado, Giovana, também com seus 5 anos, estava preocupada em colocar o máximo de biscoitos de urso na boca de uma vez só. Ela tende a ser sem fundo, só para destoar com a magreza que a acompanha desde bebê.

Luiza então seguiu a viagem tagarela, contando de tudo um pouco, falando em tom mandão. Conversando hora comigo, hora com a irmã. Sempre imperativa e cheia de argumentos e revirando os olhos e mexendo as mãos para dar um tom de veracidade para o que falava. Ela é a menina de cinco anos mais velha que eu já conheci na minha vida. Quando eu for entrar na minha próxima reunião, vou chama-la para os momentos argumentativos. Ela certamente vai se sair melhor do que eu.

Já a Giovana, se encaixava no meio da conversa, entre um biscoito de urso e outro, e contava de forma fofa o dia na escola. Em alguns momentos chegava a choramingar que não conseguia contar o que queria: a irmã não parava de falar um segundo. Ela queria contar o seu sonho da noite anterior. A brincadeira da hora do lanche. Ela queria o rádio mais baixo, e a música de adulto que a Luiza já sabia cantar não a agradava. Ela gosta mais de histórias. Ou das músicas que aprende na escola.

E eu olhava tudo aquilo incrédula. Elas duas foram geradas juntas. Nasceram com a diferença de exato um minuto. Estão expostas aos mesmos estímulos desde o momento em que saíram da minha barriga. E são tão diferentes quanto seria possível ser.

E estamos nesta jornada meio maluca com as duas desde que começaram a se expressar. Eu, que passo o dia todo fora, quando chego em casa, tenho duas crianças com necessidades completamente diferentes. Uma mini adulta que quer conversar sobre o mundo, quer respostas, quer cozinhar, quer tomar banho e trocar de roupa com urgência, quer atenção de uma forma mais intelectual. E uma criança no sentido real da palavra, que quer colo, quer assistir desenho juntinho, quer fugir do banho, quer fazer xixi com alguém porque tem medo do monstro.

Eu preciso dizer que me é automática a comparação em alguns momentos. E, nestes três segundos em que eu me pego comparando as duas, eu sinto no meu coração o quão injusto com elas é isso. Duas pessoas tão parecidas fisicamente, mas tão diferentes e tão especiais cada uma a sua maneira. Elas não só merecem, mas necessitam ser respeitadas em sua individualidade.

Eu imagino que pais que tiveram filhos em idades muito próximas devem ter experiências muito parecidas com o que eu estou vivendo agora. E, por vezes, dosar esta individualidade é complicado. Separar as roupas por exemplo é um desafio. Ou saber balancear a bronca com base na personalidade de cada uma, e na dificuldade que cada uma delas tem em transpor alguns obstáculos pessoais. Elas já se comparam. Elas já se cobram.

Mas para mim, o mais difícil é saber pegar este tempo que sobra depois do trabalho, e do jantar, e do banho, e das preocupações todas que pairam sob minha cabeça de mãe superprotetora, e dividir entre o que as duas gostam de forma equilibrada. Sem puxar nem pra uma, e nem pra outra.

Meus queridos, cadê o manual destas crianças? Não veio? Eu LITERALMENTE estou precisando de um.

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