Eu já perdi as contas de quantas vezes ouvi as pessoas perguntarem como eu consigo equilibrar a maternidade e o trabalho. E, nesta pergunta estão inseridas duas questões que eu entendo ser de uma importância enorme. A primeira é o fato de que é naturalmente esperado que a relação trabalho versus família seja desequilibrada. E o segundo é que parte-se do pressuposto da mãe o cuidar. 

Sobre a primeira questão, eu poderia falar por horas. Dias. Semanas. O bom funcionário, segundo a nossa cultura, é aquele que fica até mais tarde, que entrega mais que os demais, que faz o dele e o do outro, e excede. E isso, meus queridos, exige tempo. Exige dedicação. Ainda mais em tempos de corte de pessoas, e necessidade de entregar cada vez mais em menos tempo. 

Eu vou dar aqui um exemplo pessoal: Eu já perdi as contas de quantos fechamentos ou ciclos de plano eu tive que passar madrugadas nas empresas em que trabalhei. Mais de cinquenta, com certeza. Ou seja, foram cinquenta noites ou fins de semana ausente. E o padrão está claro. Não foi em uma empresa, nem eu duas, nem em três. Foram em todas as empresas em que trabalhei até hoje. Em absolutamente TODAS. Entendem o que eu quero dizer com o desequilíbrio entre tempo com a família e a empresa? Pois é.

O segundo ponto é ainda mais complicado. Eu me lembro que, na mesma época que as minhas gêmeas nasceram (Luiza e Giovana, hoje com 5 anos), outros dois funcionários homens também tiveram gêmeos na empresa em que eu trabalhava. Algo na água? Talvez! 

O fato é que somente eu ouvia constantemente comentários de “como você consegue?”, “Você é guerreira demais”, “Você deveria parar de trabalhar”, enquanto no caso deles, os comentários eram sempre parabenizando pelos filhos, ou incentivando a trabalhar mais, para pagar pelos gastos de ter dois filhos. 

Claro que, cada família tem uma organização, uma forma de fazer as coisas funcionarem e de se estruturar. Porém, eu me sentia muito desrespeitada em ser tratada como uma mãe e não uma profissional. Ninguém estava sugerindo aos outros homens pais de gêmeas que parassem de trabalhar, afinal dava dó deixar na escola, da forma que faziam comigo. Parece que a mãe trabalhadora vira uma aquisição pública, e está tudo bem falar dela, quando na verdade não está. Cada uma de nós faz a sua escolha, seja ela ficar em casa ou trabalhar. E cabe a cada um respeitar esta escolha, sem fazer disso tema para discussão. Especialmente aquela pessoa com a qual não temos abertura alguma! 

Neste período eu adquiri uma fama de grossa. De antissocial. Comigo era assim: Batia, Levava. E, até hoje, estou afiada! Cuidado comigo, gente! Se chegar aquela pessoa irritante com a qual você não tem a menor intimidade, e ela vier te fazer perguntas indiscretas ou comentários desrespeitosos, me chamem. Eu sou profissional em colocar essas pessoas de volta no lugar delas.  

Seja como for, nós, mães trabalhadoras, estamos sempre em busca de duas coisas nessa vida: equilíbrio e menos comentários desnecessários. A vida já anda complicada demais sem o pitaco alheio. E se forem dar pitaco, tragam junto um pacote de fraldas, leite, um biscoito, meu relatório de amanhã, e uma cerveja gelada, por que depois de um dia cheio, eu mereço, não é mesmo? 

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