A chegada de um novo companheiro da mãe ou de uma nova namorada do pai nem sempre é bem-vindo pelas crianças. A novidade, muitas vezes, desperta diversas emoções nos pequenos (as) e, quando reparamos bem, notamos que o baixinho (a) está sentindo ciúmes do novo relacionamento da mãe e/ou do pai. Então, você se vê com inúmeras interrogações e fica sem saber o que fazer. Afinal, como lidar com o ciúme do filho (a)?

Primeiramente, é preciso compreender que a manifestação desse sentimento acontece de forma natural para as crianças e jamais deve ser repreendido. “É preciso entender que o ciúme é uma emoção, portanto, é algo natural e normal. Muitas vezes colocamos algumas emoções com uma visão extremamente negativa e tendemos a evitar ou não permitir sua expressão. Toda emoção ensina porque é uma comunicação”, explica a psicóloga clínica Cyntia Diógenes, que é autora do livro “Meu irmãozinho chegou! e agora?”. 

De acordo com a profissional, geralmente o ciúme é uma combinação do medo, da raiva e da tristeza. E essa mistura de sentimentos pode ser desencadeada na criança por meio de uma percepção de mudanças, acompanhado do medo de perder algo ou alguém. “É uma tentativa de defender o que não se quer perder, mesmo que ‘a perda’ não seja real. Então, as reações e formas de manifestar são dirigidas à pessoa que está representando essa ‘ameaça’, muitas vezes refletido em não querer contato, hostilidade, mudanças de humor injustificadas e solicitação de atenção mais intensa ao pai/mãe”, afirma Cyntia.

Comportamentos regressivos também podem surgir, como voltar a querer usar chupeta ou passar a ter episódios de xixi na cama, por exemplo. Segundo a educadora parental e professora de língua portuguesa Diandra Ragazzi, é preciso lembrar que as crianças podem apresentar ciúmes de diversas formas. Porém, a mais recorrente é a mudança de conduta. 

“Elas passam a se oporem a tudo, assumem uma posição desconfiada e indiferente a qualquer coisa que seja proposto a elas. Algumas passam a agir com certa agressividade com qualquer pessoa que faça parte do seu convívio, altera seu humor sem motivo aparente, ficam mais emotivas e se apegam ainda mais a mãe /pai”, ressalta Diandra.

Como lidar com o ciúme que meu filho sente do meu novo namorado (a)?

Se nós adultos, muitas vezes, sentimos dificuldade em lidar com as mudanças que ocorrem na vida, com as crianças não seria diferente, não é mesmo? Então, com o novo relacionamento de um dos pais, é esperado que a criança se sinta mais insegura. “A chegada de uma nova pessoa na convivência com a criança pode também dar a sensação de ‘vou perder’ a atenção/amor/tempo com minha mãe/pai. É uma maturidade que muitas vezes a criança pode não ter e se reflete em comportamentos de ciúmes”, justifica a psicóloga Cyntia Diógenes.

Sendo assim, a psicóloga acredita que para esse processo de mudança não ser doloroso, precisa ocorrer de forma gradual, ou seja, insira esse novo relacionamento aos poucos na rotina com a criança. “A apresentação dessa nova pessoa precisa ser leve e tranquila (e não impositiva), participar dos gostos da criança diminuindo a ideia dessa pessoa como ‘ameaça’ ou um ‘adversário(a)’”, orienta.

Para Cyntia, os adultos devem entender as emoções dos pequenos e das pequenas como algo não pessoal, mas sim como uma manifestação de ‘perda’. Diálogo e afeto também são fundamentais para tornar a situação mais tranquila. “Vá oferecendo um discurso de quem é essa pessoa que está chegando, mas que a relação pai/mãe e filho(a) permanece. Ouça as dores e os entendimentos da criança para ir desconstruindo a ideia de algo negativo relacionado ao novo relacionamento”, recomenda.

A educadora parental Diandra Ragazzi ressalta ainda a importância de os adultos não negligenciarem o sentimento manifestado pelos filhos. “A criança precisa sentir-se acolhida e, por isso, ouça com o coração aberto e tenha empatia pelo que ela está sentindo. Será importante para que possa sentir-se amada e compreendida. Além disso, é necessário que os pais falem também sobre os seus sentimentos e esboçam  o desejo de que todos possam se tornar uma família e viver juntos em harmonia, para que a criança possa entender o quanto isso é importante para  a mãe/ou pai”, explica.

4 atitudes que você deve evitar 

Para lidar melhor com o ciúme infantil, a psicóloga Cyntia Diógenes listou quatro atitudes que devem ser evitadas para não gerar ainda mais reação na criança:

  1. Reações bruscas (como mudanças intensas rápidas): isso gera insegurança e vulnerabilidade podendo aumentar as reações negativas da criança; 
  2. Inconstâncias: não fique mudando de ideia o tempo todo. A criança ficará ainda mais ‘perdida’;
  3. Intensidades de reação com a criança: impedi-la de sentir, dizendo para parar com o ciúme, por exemplo, ou atribuindo esse sentimento como feio ou ruim. Lembre-se que não podemos impedir de sentir algo, podemos entender e saber reagir de forma mais funcional;
  4. Imposições: na tentativa de gerar uma aceitação pela criança pode-se usar frases como “você tem que gostar”, “agora é assim” e/ou “você tem que aceitar”. Saiba que nada imposto é natural e verdadeiro, inclusive pode gerar até mais reação.

Saiba se o ciúme que a criança manifesta está exagerado

Você já sabe que sentir ciúme é algo natural, mas sempre bate aquela dúvida se o sentimento que sua criança está manifestando tem extrapolado um pouco e, então, você começa a achar que é algo exagerado? Só há uma forma de descobrir a resposta para essa dúvida: observando a criança.

“Se os pais notarem que as  mudanças de comportamento da criança estão causando problemas para a saúde física dela, por exemplo, deixar de comer ou comer demais, e até mesmo estiverem impactando no relacionamento com outras pessoas, no rendimento escolar, em agressividade, é fundamental procurar apoio de um terapeuta”, sugere a educadora parental Diandra Ragazzi.

De acordo com a psicóloga Cyntia Diógenes, se a reação não está de acordo com o ambiente ou com a situação, é um sinal de que há algo sendo entendido de forma intensa pela criança. “Por exemplo: um medo intenso quando a mãe/pai diz que vai sair de casa e, embora a criança saiba que volte, reage de forma intensa; ou com a chegada do companheiro(a) da mãe/pai a criança reage com hostilidade, quebra brinquedos, não atende aos pedidos da mãe/pai, grita ou chora com intensidade”, exemplifica.

A psicóloga Cyntia ainda destaca que atrás do comportamento intenso há o medo de perder. Para lidar com essas situações, procure fazer algumas intervenções, como intensificar comportamentos de atenção à criança, usar palavras de afirmação e ter tempo de qualidade com a criança.


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