Como qualquer pessoa, as crianças também ficam triste, têm medo, sentem raiva ficam bravas e frustradas. Entretanto, algumas mudanças na vida dos baixinhos (as), como a chegada de um irmãozinho (a), mudança de casa, separação dos pais e, inclusive, a pandemia, podem provocar alterações no comportamento. E, muitas vezes, apenas o apoio e acolhimento da família não serão suficientes. Nesses casos, a ajuda de um profissional especializado é fundamental para a saúde emocional desse pequeno.

Mas, então, como perceber que seu filho e/ou filha está precisando de um psicólogo para lidar com alguma determinada situação? De acordo com a psicóloga infantojuvenil Ana Paola Parentoni, diferentemente dos adultos, quando uma criança precisa de um ajuda, raramente ela verbaliza sobre seu sentimento, sendo mais comum observar mudanças comportamentais e psicoemocionais. “Alguns exemplos são: regressão em relação ao seu desenvolvimento, dificuldades escolares, dificuldade nas interações sociais, mudança nos hábitos alimentares, mudanças em relação ao sono, apresentação de comportamentos desafiadores, entre outros”, exemplifica. 

A psicóloga Priscila Cunha, residente em saúde mental, afirma que quando há um acontecimento na esfera familiar, é esperado que todas as áreas da vida da criança sejam atingidas, como aprendizagem, afetividade, emocional, educacional, comportamental e linguagem. “Com a chegada de um irmãozinho, a criança tem sua rotina de sono modificada não apenas pelos hábitos que passam a existir na casa, mas também pela ansiedade, pela curiosidade, pela raiva, ciúmes… As mais novas têm impactos no processo de desfralde, algumas regridem fases comportamentais, passam a querer voltar a dormir no berço, tomar mamadeira, usar chupeta, reduzem o vocabulário de palavras e a forma como falam também poderá sofrer alterações”, explica. 

Sendo assim, quando acontece alguma mudança na vida dos pequenos, Priscila ressalta que a melhor ferramenta que a família pode ter é a observação. “Observar os hábitos do filho, conversar, saber os interesses da criança, as curiosidades, tudo isso colabora para que, ao perceber mudança da rotina, os pais fiquem em alerta”, pontua.

 

Quais mudanças de comportamento durante a pandemia são preocupantes?

Na maioria dos estados brasileiros, as crianças estão longe das escolas há mais de seis meses, quando as aulas presenciais foram suspensas para tentar conter o avanço da pandemia. Longe dos amigos, dos professores e dos familiares, cumprindo o distanciamento social dentro das próprias casas, algumas crianças podem apresentar mudanças comportamentais devido a todo esse cenário desafiador.

A psicóloga infantojuvenil Ana Paola Parentoni conta que, nesse período de quarentena, recebeu várias demandas de crianças com sintomas de ansiedade e depressão. “Em casos assim, algumas mudanças que podem ser observadas são: choro frequente, irritabilidade aumentada, sonolência ou insônia, agitação, dificuldade de se relacionar, preocupação e medo excessivos”, explica.

Distantes das atividades que mantinham anteriormente e, agora, com uma rotina dentro de casa, conciliado o novo cotidiano de estudos com pais e mães, que estão em home office, a psicóloga Priscila Cunha alerta para os riscos de deixar os pequenos expostos às telas. “Já temos alguns estudos que falam sobre os danos causados sobre o uso prolongado de telas. A principal modificação de rotina é na de sono: crianças passam a dormir menos e terem sonos mais perturbados porque há menor produção de melatonina. Também tem a rotina alimentar modificada, a criança passa a não sentir fome, tem a sensação de saciedade”, afirma.

Ainda segundo Priscila, o excesso de telas também pode trazer malefícios para a saúde emocional, como favorecer a depressão infantil, ansiedade e até mesmo transtornos alimentares. 


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Como é o trabalho de um psicólogo infantil?

Depende da abordagem que cada profissional, pois cada psicólogo (a) segue uma teoria, possui suas próprias técnicas e utiliza mecanismos que vão guiar os atendimentos. “No meu caso, com base na Gestalt-terapia, os atendimentos ocorrem com o uso de brinquedos, brincadeiras, jogos, estimulações sensório-motoras, da linguagem, resolução de problemas, por exemplo”, explica a psicóloga Priscila Cunha.

O trabalho de um psicólogo inclui, ainda, atender a própria família da criança e conversar com os professores da escola que ela frequenta. “Trabalho conhecendo o contexto que aquela criança está inserida e buscando interligar a sua rede de apoio que gira em torno da família e colégio. Mas é a partir de cada demanda que as atividades e intervenções se desenrolam”, afirma.

A psicóloga infantojuvenil Ana Paola Parentoni conta que realiza as sessões da maneira mais lúdica possível. “Gosto muito de utilizar jogos, brincadeiras, músicas e trechos de filmes. Além disso, sempre deixo acessível papel, lápis de cor, giz e tintas. O lúdico permite que a criança se expresse melhor e torna as intervenções da psicoterapia mais acessíveis aos pequenos”, enfatiza.

 

Dentro de casa, como a família pode ajudar as crianças nas questões emocionais?

De acordo com a psicóloga infantojuvenil Ana Paola Parentoni, pais e mães devem colocar em prática a parentalidade positiva e manter sempre uma postura acolhedora com os filhos e/ou filhas. “O exercício da parentalidade deve ser permeado por empatia, firmeza, gentileza e generosidade: essas são ferramentas que todos os pais devem usar com seus pequenos”, orienta.

Para a psicóloga Priscila Cunha, a melhor forma de pais e mães ajudarem as crianças a lidarem com as questões emocionais é observar, escutar e conversar. “Considerar que o filho não é uma extensão de si e que não está aqui para satisfazer os sonhos inacabados ou as vontades dos pais já é um bom começo… Não é fácil, é um exercício de paciência, mas que deve ser realizado porque, nessa relação, a criança é apenas a criança”, finaliza.

 

Após separação, mãe busca ajuda psicológica para os filhos

Após seis meses de separação, a assistente administrativo Claudia Santos*, de 32 anos, resolveu buscar ajuda profissional para os filhos, que têm 7 e 6 anos. O receio da mãe das crianças era de que os filhos passassem por alguma situação de alienação parental. 

“Então, quis me precaver. Até porque eu faço terapia há muito tempo e, para mim, é ótimo. Acho que é o único lugar que você consegue se expressar sem julgamento. E pensei que meus filhos também precisam ter um profissional em quem confiar”, ressalta.  

Após o início da terapia, Claudia percebeu que a filha primogênita está mais aberta ao diálogo. “Ela não é uma criança introspectiva. Mas percebi que ela está mais solta”, afirma.

*A pedido da fonte, a identidade foi preservada


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