Desde a chegada da pandemia, em março deste ano, muita coisa mudou em casa, na escola, no trabalho. Dentre os impactos causados em toda sociedade, um dos mais inegáveis é que inúmeras pessoas tiveram suas rendas drasticamente afetadas, quando não completamente exterminadas com o fechamento de negócios, redução de carga de trabalho ou perda do emprego. Diante disso, muitas famílias precisaram reajustar seu padrão de vida. E aí, surgem grandes questões: como envolver as crianças nesse novo cenário financeiro? Como tornar essa situação desafiadora em um aprendizado para os pequenos, sem gerar neles algum tipo de trauma? A consultora financeira Bianca Zimmer, mãe de três filhas e autora de livros em Educação Financeira, dá as dicas. “As crianças precisam ser envolvidas nas questões financeiras da família. Que tipo de pessoa adulta você deseja para o seu filho? Independente ou descontrolada? A escolha é nossa, como pais.”  A seguir, confira outras orientações que Bianca dá para que pais e mães usem a crise para ensinar importantes lições para seus filhos.   

– Muitas famílias estão vivendo crises financeiras em casa. Como envolver as crianças sem assustá-las?  

A família toda precisa estar envolvida na situação financeira familiar. Quando a família passa por uma dificuldade financeira, todos estarão juntos no mesmo barco. Lógico que deve existir o bom senso dos pais na hora da conversa com os filhos, levando em consideração  a idade a criança mas acho que devemos ser o  mais transparente possível ou seus filhos não irão entender o que está acontecendo.   

– Como começar o assunto?

Inicie a conversa dizendo que a situação mudou mas que isso é passageiro e que por um tempo determinado a família terá que “apertar os cintos”. Deixe a sua criança segura, afirmando de que “Juntos iremos resolver a situação para melhor”. Acho legal também colocar uma meta de comemoração para que todos celebrem, juntos, a vitória quando a tempestade passar. Um passeio em família, por exemplo, é um ótimo jeito de comemorar!  

– Como ensinar as crianças a perceberem a crise e a necessidade de mudarmos de hábito?

O primeiro passo é conversar sobre o que está acontecendo. Fazer um orçamento para que a criança entenda que quando for ao supermercado, o valor a ser gasto naquela semana será somente o dinheiro que foi reservado dentro do orçamento e não poderá sair fora dele.   

– Quais são os valores principais que podemos passar para as crianças em tempos austeros?

A transparência financeira é um valor forte em um lar saudável. A responsabilidade financeira também é essencial. Ensinar, por exemplo, que toda a família deve ter uma reserva de emergência e que este dinheiro será usado somente em caso de emergência.    

– Como uma criança que foi educada financeiramente pode se beneficiar, quando adulta?

Ela será um adulto próspero e com liberdade financeira. Se as crianças não tiverem controle do dinheiro antes de se tornarem adultos, elas vão aprender que o dinheiro sempre será provido por alguém, e que elas não precisam ser responsáveis pelos próprios gastos. Ensine o máximo possível sobre orçamento, poupança, investimento, corte de gastos e controle de dívidas. Com esse conhecimento adquirido, certamente seu filho será um ótimo administrador das próprias finanças.   

–  Algumas crianças estão tomando iniciativa para conseguir dinheiro: vendem brinquedos online, livros usados, bolachinhas que fazem em casa. Isso é benéfico ou pode ser muito precoce?

Na minha opinião, é benéfico porque a criança tem que entender o que significa o dinheiro e que o dinheiro vem do trabalho. Seus filhos devem começar a aprender essa lição enquanto jovens, por meio de uma renda extra. Essa renda não deve vir de tarefas domésticas, pois eles precisam aprender a contribuir dentro de casa sem esperar qualquer retorno financeiro.  

– Quais “trabalhos” as crianças podem fazer para conseguir uma renda extra?

Uma forma é colocar os filhos para te ajudar no home office: ser seu “assistente”, arquivar papéis, separar recibos, organizar gavetas, enviar e-mails, marcar clientes, etc. Nos EUA, os jovens cortam a grama de quintais da vizinhança, cuidam dos filhos dos amigos e lavam os carros de outras pessoas. Também é possível passear com animais de estimação ou dar aulas particulares, por exemplo. Vender roupas usadas, acessórios e bijuterias também está sendo muito popular nos dias de hoje.   

– Com qual idade a criança já deve ter mesada e poder decidir o que fazer com ela? 

Com cerca de 3 ou 4 anos já podemos dar tarefas para as crianças fazerem – e aí serem remuneradas. Acredito no sistema da meritocracia: a pessoa recebe se mereceu.  Por exemplo: se ele guardar seus brinquedos ou fizer a cama, ganha 50 centavos. Assim que a criança terminar a tarefa, comemore com ela e pague imediatamente. Então, eles farão a conexão entre trabalhar e receber o pagamento, é seu momento de introduzir um elemento novo.  Uma criança de dez anos pode ter mais responsabilidade. Faça uma lista de tarefas que eles deverão completar durante a semana, como lavar a louça, dobrar a roupa ou tirar o lixo. No final da semana, some o quanto eles ganharam e faça o pagamento. A dependência de mesada mudar na adolescência e cabe a você, junto com seus filhos, redefinir as prioridades.   

– Os pais que precisarem cortar ou diminuir a mesada das crianças devem fazê-lo? 

Sim, sempre. A criança, independentemente da idade, precisa entender que a família está passando por uma dificuldade e todos precisam colaborar. No entanto, sempre é bom deixar claro que isso é por um tempo determinado e não para sempre.   

– Os pais devem intervir ou deixar que os filhos cometam erros com o dinheiro?

Sim, os pais devem deixar que os filhos cometam erros para que eles aprendam. Deixe o primeiro, o segundo – mas no terceiro, devemos intervir e reforçar a orientação, o aprendizado. Os filhos aprendem com os erros, assim como nós. Nunca cubra um erro: por exemplo, um adolescente que fica no vermelho, deixe ele arcar com isso. Só assim ele irá aprender.   

– Qual sua dica para ensinar os filhos a terem noção do valor do dinheiro e das coisas?

Ensine as crianças que o dinheiro vem do trabalho e que é uma ferramenta que, como outra qualquer, poderá facilitar nossas vidas pois é moeda de troca. Sendo assim, teremos que saber cuidar desta ferramenta, estudar a respeito dela e mantê-la da melhor maneira, dando a manutenção adequada.    


Desenvolvendo a inteligência financeira nas crianças


 

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