É encantador observar uma criança brincando sozinha, construindo suas próprias narrativas e usando toda sua imaginação, não é mesmo? Além de ser mágico, é um alento para muitos pais e mães, que precisam aproveitar esse momento criativo e autônomo do filho e/ou filha para finalizar um trabalho, participar de uma reunião ou até mesmo para dar aquela organizada na casa. Porém, mais do que todas essas vantagens, você sabia que o fato de brincar sozinha é benéfico para a própria criança?

Brincar sozinho estimula o conhecimento, a descoberta, estimula a autoestima, incentiva a criatividade, ensina a criança a lidar com o tédio e a tomar decisões. Em outras palavras, é possível afirmar que auxilia a desenvolver habilidades que são importantes para a vida, sendo fundamental para a formação integral do ser humano.

Mas, afinal, a partir de qual idade as crianças têm capacidade e desenvoltura para brincarem sozinhas? De acordo com a psicopedagoga Patrícia Ottoni da Silva Borim, que também é neuropsicopedagoga e educadora parental, o brincar existe desde o nascimento de um bebê. No início, os bebês brincam com o próprio corpo, com suas mãozinhas e seus próprios pés, por exemplo. E a exploração continua corporal até chegar nos brinquedos. 

“Crianças muito pequenas, na primeiríssima infância, exigem muito a presença afetuosa de um adulto.  Nessa fase, que vai dos 0 aos 3 anos, é fundamental a supervisão dos adultos para proporcionar um ambiente seguro e para apresentar ou introduzir a criança ao mundo, pois este período é decisivo na constituição psíquica dessa criança”, pontua a profissional.

Porém, conforme os pequenos vão crescendo, conquistam mais independência e autonomia. Com isso, passam a ficar mais tempo brincando sozinhos. “Para que esse livre brincar aconteça de forma rica e equilibrada, é essencial que essa criança tenha muitos momentos de cuidados afetivos e físicos com o adulto de referência. Pois, é através dessa relação que essa criança será introduzida e ensinada como funcionam as relações humanas, a si mesmo, seu contexto”, explica.

Como estimular a criança a brincar sozinha?

Segundo a psicopedagoga Patrícia Ottoni da Silva Borim, que também é neuropsicopedagoga e educadora parental, para que uma criança se sinta confortável em brincar sozinha, ela precisa ter as demandas emocionais, afetivas e fisiológicas atendidas. “Ela precisa se sentir amada, aceita, importante e segura. Em outras palavras, quanto mais abastecido estiver seu tanque emocional maior a sua segurança em estar consigo mesma e brincar”, ressalta.

Patrícia acredita que para ter maior repertório para brincar sozinha, é necessário que a criança também tenha possibilidades de vivencia uma riqueza de experiências ao lado da família e dos cuidadores. “É na infância que aprendemos sobre quem somos, qual nosso lugar no mundo, como funcionam as relações humanas e o próprio mundo. Para aprender sobre essas coisas, a criança depende da mediação de um adulto. Inclusive, nós adultos, não podemos abrir mão dessa responsabilidade como educadores que somos”, destaca.

Sendo assim, para que o brincar livre e espontâneo aconteça, a profissional afirma que pais e mães devem equilibrar a necessidade de proteger as crianças e a necessidade delas de explorar o mundo, e abastecer o ‘tanque’ emocional desses pequenos. “Quanto mais uma criança se sente vista, amada e acolhida pelos adultos mais ela  cresce confiante e independente e, consequentemente, mais rico se torna seu livre brincar”, define.

3 dicas para estimular o brincar sozinho

Confira as dicas da psicopedagoga, neuropsicopedagoga e educadora parental  Patrícia Ottoni da Silva Borim, para incentivar sua criança a brincar sozinha: 

Tempo especial juntos: reserve diariamente um tempo que você dedicará exclusivamente aos seus filhos. Façam uma lista de atividades que vocês gostam de fazer juntos. Desligue o celular, foque na criança, tratando-a como algo de mais valioso que existe. Permita que seu filho/filha seja protagonista deste momento. Entregue e divirta-se de verdade!

Tenha cartas na manga: um cesto de livros, uma caixa com massinha, um cesto de tesouros (utensílios domésticos, elementos naturais) podem salvar sua vida em uma reunião inesperada. Você mantém seu filho entretido enquanto está concentrada em outra tarefa.

Saia para brincar lá fora: tenha pelo menos um momento do dia para ir para o quintal correr, desenhar com giz de lousa no chão, chutar bola, correr e/ou pular corda. Cerca de 30 minutos diários com seu filho, nesse movimento de expansão, são suficientes para estabelecer conexão e leveza, e ajuda a enfrentar as tarefas mais árduas do dia.

O excesso de telas pode ser prejudicial no processo de brincar sozinho?

De acordo com a psicopedagoga, neuropsicopedagoga e educadora parental  Patrícia Ottoni da Silva Borim, estudos científicos mostram que o excesso de luz e cores das telas, além da velocidade frenética de mudança de cenas a que a criança fica exposta, entre outros fatores, podem provocar atraso na linguagem, na capacidade de descentração, nas funções executivas como concentração, controle inibitório e memória.

Além disso, a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria, embasada em recomendações da própria Organização Mundial da Saúde, é de que crianças entre 2 e 5 anos não ultrapassem mais de uma hora diária na frente das telas, e que crianças acima de 5 anos fiquem no máximo duas horas por dia. 

“Vygotsky, psicólogo da abordagem sociointeracionista, diz que o homem não nasce homem, ele se humaniza. Para mim, essa frase elucida o principal problema da superexposição às telas na infância: tira a possibilidade de interação entre parceiros sociais, mediada pela linguagem. Isso é o que propulsiona nosso desenvolvimento cognitivo”, afirma Patrícia.

Além de impactar negativamente o desenvolvimento emocional e afetivo das crianças, Patrícia destaca que o excesso de telas prejudica até mesmo a competência para lidar com a frustração, com a ansiedade e com a irritabilidade. “Isso é só a ponta do iceberg, porque como a tecnologia avança em velocidade ímpar e estes estudos não dão conta de acompanhar quais os impactos estão sendo gerados”, completa.

Ainda segundo a profissional, a superexposição às telas pode limitar o desenvolvimento infantil, justamente no período em que o cérebro está mais ativo. “Isso porque as crianças, diante das telas, ocupam uma posição passiva, de telespectador, de quem apenas recebe informações, sem a possibilidade de interação, exploração, criação e protagonismo”, afirma. É importante reforçar que as crianças que têm muito acesso às telas podem ter menos criatividade e atenção reduzida, dificultando a ação de brincar sozinha. 


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