No Brasil, 54% da população é negra, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Porém, encontrar referências de crianças e adultos negros na televisão, na publicidade e nas embalagens dos produtos disponíveis no supermercado, nem sempre é tarefa fácil. As fraldas, por exemplo, geralmente têm a foto de um bebê de pele e olhos claros estampada nos pacotes. O mesmo se repete nos rótulos de xampu, nos brinquedos e nas marcas de roupas e calçados.  Já parou para refletir o quanto a falta de representatividade negra afeta todas as crianças? Discutir o racismo ainda na infância impacta o processo de construção de identidade dos pequenos, tantos negros quanto brancos.

“Eu, como adulta que quando criança sentiu na pele a dificuldade de se encontrar socialmente, defendo a ideia (da representatividade negra) como um apoio socioemocional, principalmente na infância. Nossas crianças irão inspirar-se em princesas, heróis, heroínas e figuras públicas. Se as pessoas fisicamente parecidas com elas são sempre retratadas como inferiores, de que maneira isso será internalizado?”, indagada a ativista Jeane Santos, que também é afroempreendedora e administra o perfil @poderpretokids no Instagram.

Com a ausência da representatividade negra, Jeane afirma que há indivíduos que não se reconhecem como negros, embranquecendo a leitura de si mesmo e reproduzindo esse comportamento com o objetivo de ascender socialmente. “Em alguns espaços, a negritude de um indivíduo é colocada em cheque como algo extremamente ruim, considerando o fato de ser moreno, sarará, pardo ou qualquer outra nomenclatura mais comum e ‘melhor’ que negro/preto. Principalmente nas crianças, isso tem um efeito devastador, sendo pessoas pretas de pele clara melhor aceitas na sociedade”, ressalta.

De acordo com Jeane, a ausência da representatividade negra infantil pode fazer com que as crianças não se encontrem socialmente, como se não houvesse um lugar de pertencimento. “Se ver na sociedade é uma forma de alimentar seus sonhos e buscar ser o que quiser ser. Baixo estima, ansiedade, transtornos psicológicos, como a síndrome do impostor por exemplo, podem ser um dos prejuízos”, afirma.

É preciso acrescentar ainda que as questões que envolvem a representatividade negra devem abranger todas as crianças, independentemente da sua cor. “Acredito que a representatividade é a confirmação que nós somos todos diferentes e é também o que torna, cada um de nós, tão especial!”, pontua. Vale lembrar que a representatividade negra é também uma das formas de combate ao racismo. “É um meio de combate à estrutura social racista no tocante a pertencimento, afinal, uma criança preta se reconhecer em lugar de protagonismo fortalece sua autoestima, cria possibilidades. Por outro lado, uma criança branca perceber desde sempre que o mundo é um lugar diverso, apresenta a ela desde cedo a ideia que ela pertence ao todo e que outros fenótipos são assim como os dela, importante e não tolerável”, esclarece.

Como mães, pais e educadores podem fortalecer a representatividade negra?

Para a ativista Jeane Santos, os adultos são os responsáveis por dar suporte para que a criança possa compreender quem ela é e de que maneira ela será apresentada na sociedade. 

Sendo assim, ela acredita ser fundamental buscar referência preta social, tanto na literatura, como na música, no vídeo e em todos os meios de comunicação. “Nós temos pretos produzindo em todos os segmentos e não só isso, tem muita qualidade no que estamos entregando. Falta, em alguns, a vontade de buscar por essas contribuições”, pontua.

Para mães, pais, educadores e cuidadores que estão em busca de fortalecer a representatividade negra, um bom começo é a leitura do livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro. “Kiusam de Oliveira, Emicida, Livia Marques (psicóloga e escritora), são alguns dos muitos produtores de entretenimento que valorizam a nossa ancestralidade. Precisamos que estes conteúdos sejam presentes na vida dos pequenos, independente da sua cor”, acrescenta.

Menina vibra ao ver jornalista negra na televisão
Em 2019, a jornalista Maju Coutinho repostou um vídeo em que uma garotinha vibra ao vê-la apresentando um telejornal por se identificar com o cabelo da profissional. O post viralizou e provou, mais uma vez, o quanto representatividade importa. Assista aqui ao vídeo.

Depois desse episódio, a menina, que se chama Maria Alice e tinha quase 3 anos na época, foi convidada para participar do programa Encontro com Fátima Bernandes, onde conheceu pessoalmente a Maju. 


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