Culturalmente, nós, brasileiros, nos preocupamos muito com a sexualidade alheia, desde a infância. Não diferente de outras culturas, que são inclusive piores que nós nesse quesito. Quantos pais estão sempre tentando provar o interesse de seus filhos, meninos, de um, dois, quatro anos pelo universo dito masculino: futebol, jogos, carros e, por que não, meninas. Quantos pais se esforçam para fazer com que suas filhas se interessem pelo universo dito feminino: princesas, bonecas, panelinhas e até mesmo um namoradinho, “só de brincadeirinha heim…” Criança não namora, criança brinca, criança estuda, criança é criança, a gente sabe disso. Por mais que as escolas eduquem, a cultura parece se sobrepor e, na secretaria, nas festinhas e, vez ou outra, na sala de aula, surgem as histórias dos namoradinhos de 5 anos, dos prometidos de 3 anos. Quando advertidos, os pais costumam dizer que as crianças é que inventaram essa história, que o filho é que falou, mas, por fim, quem encorajou? Recebi na minha sala uma mãe grávida, aos prantos. A filha de 4 anos estava muito assustada com o comportamento de um coleguinha, também de 4 anos, que insistia em se dizer namorado dela. O menino insistia em fazer carinho nas costas da menina enquanto dizia: “deixa eu te amar?”. O toque nas costas e a insistência das abordagens assustou muito a menina e, quando ela se abriu com a família, o que foi um ótimo sinal de confiança, gerou nos pais um misto de tristeza, repúdio e indignação. Conversamos com a família do menino, com as educadoras, com as crianças e o comportamento cessou. As origens do problema, definitivamente, não eram minha prioridade naquele momento. Minha preocupação principal era proteger as duas crianças, priorizando, nesse caso, a menina que estava se sentindo vulnerável.  

Em especial no meu segmento educacional, do berçário aos cinco anos, algumas demonstrações supostamente afetivas são vistas pelos adultos de forma cômica, engraçadinha e, algumas vezes, são até estimuladas. Uma mãe achava graça porque o filho de quase cinco anos dizia que uma determinada menina era para casar e a outra era só para se divertir. Uma outra achava divertido o fato de o filho de 4 anos dizer ter 3 namoradas. Essa mãe inclusive comprava presentes para elas no dia dos namorados. “Nada demais”.  Pela minha experiência, mesmo em segmentos posteriores, com crianças mais velhas, esse comportamento surge, na maioria das vezes, com os meninos e, em muitos casos, com o estímulo inicial do pai que se orgulha do filho “garanhão”, “pegador”, “sucesso entre as meninas”, “Don Juan”. O comportamento da mãe, na maioria dos casos, é de nadar a favor da corrente, ou porque não se opõe ou porque já cansou de se opor. Por questões kármicas, sociológicas, antropológicas e culturais a masculinidade sempre foi algo que o homem acreditou precisar provar e defender desde tenra idade. No caso, o pai acredita que precisa defender a masculinidade de seu filho, ainda muito pequeno para fazê-lo por conta própria. Mas, consequentemente e talvez de forma inconsciente, ao defender a masculinidade do filho pequeno, o pai está também a defender a sua própria, por ter gerado um “cabra macho”. Muito louco, né? Pois é. Apesar de todos os namoricos e piadinhas infames sobre o tema, posso dizer que sigo esperançosa, pois tenho visto muitas mudanças no horizonte.

O universo das meninas, na primeira infância, também tem passado por mudanças positivas recentemente. Novos brinquedos, novos desenhos, novas protagonistas femininas, ocupando novos papeis sociais. Empoderadas. Passando pelo corredor no último dia letivo da escola, vi duas mães fotografando um menino e uma menina, alunos da escola, ambos com 5 anos, sentadinhos em um banco. Eis que o menino segura firme o rosto da menina e tasca-lhe um beijo, na boca, um “selinho”, como se diz. A menina arregalou os olhos, mas o menino não lhe soltou o rosto e, em seguida, outro beijo. O que me surpreendeu foi a atitude das duas mães, da mãe da menina inclusive, riram e continuaram tirando fotos. Interrompi a cena e falei: “Isso não pode, fulano. Criança não beija assim e a fulana não quer esse tipo de intimidade. Solta ela.” A minha fala pareceu tirar as mães de um transe Instagrâmico. Nada adianta empoderar as mulheres, os personagens televisivos, se, na vida real, continuarmos construindo meninas e meninos nos moldes antigos. Crianças pequenas, muitas vezes, não entendem os limites de carinho e intimidade, mas se sentem incomodadas, desconfortáveis, percebem que uma linha foi cruzada, precisam de proteção mas também de orientação, para que possam reconhecer e interromper qualquer comportamento que seja inapropriado. Entender o que é inapropriado também é importante, desde cedo, sobretudo para os meninos.  

“Eu nunca ensinei nada disso pra ela, mas ela ama, maquiagem”. Não pretendo aqui discutir as origens da vaidade que é sim característica, nata ou construída, acredito que seja construída, de muitas meninas. O fato é que crianças não têm discernimento suficiente para decidir se podem ou não pintar o cabelo, usar salto alto, pintar as unhas etc etc. É preciso um adulto que guie e oriente. Os concursos de beleza infantil, tipicamente americanos, são uma pequena amostra do que nós adultos podemos fazer com a infância de uma menina. Em escolas, espaço onde as crianças convivem longe da supervisão constante dos pais, a preocupação com a aparência e com a imagem se revela ainda mais feroz. O tema afeta meninos e meninas, mas são as meninas, justamente por serem mais vaidosas, que acabam por se penalizar mais e consequentemente sofrer mais quando fogem ao padrão de beleza. Até os meus dez anos, eu era bem gordinha e tinha meu cabelo crespo literalmente cortado à máquina, feito “pezinho”, como o de um menino da época. Minha mãe tem o cabelo liso, muito liso, e acho que não fazia ideia de como lidar com o meu cabelo, puxado ao pai. Lembre-se de, à época, que não havia Google ou tutoriais da internet. Então, na minha década de 80, cortar ou alisar eram as opções para meu cabelo. Como eu ainda era muito novinha, minha mãe cortava. Bom, eu lembro de não me achar exatamente linda, mas de não sofrer muito por isso. Eu me incomodava quando me confundiam com um menino, “poxa, eu uso brinco nas duas orelhas”, era o que eu pensava. Na época, só meninas usavam brincos nas duas orelhas. Acho que meus pais fizeram um bom trabalho nesse sentido, eu tinha e tenho uma boa autoestima. Construir autoestima nos filhos demanda tempo, recurso raro nos dias de hoje. 

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