Quando Bento nasceu, lembro-me de ter pensado, “não vejo a hora de ele aprender a colocar a chupeta sozinho”, especialmente, porque, no meio da noite, ele fazia uns barulhinhos estranhos e chorava toda vez que perdia a chupeta. Os barulhinhos me acordavam a cada 15 minutos e eu torcia por um pouquinho de autonomia. Então o Bento engatinhou, andou, falou e eu pensei “caramba, quanta energia…”, com um misto de encantamento e cansaço. Não acredito muito nos “terrible twos”, tenho, no mínimo, fortes suspeitas de que essa é mais uma daquelas invenções midiáticas que vendem piadas sobre os desafios da maternidade, com imagens de uma mãe descabelada, com olheiras, atarantada por uma criança pimentinha. Me pergunto, muitas vezes, se o mítico “terrible two” não é, na verdade, a realização dos desejos dos pais, um momento em que a gente se pergunta se devia mesmo ter desejado tanto. 

Por volta dos 2 anos, as crianças desenvolvem, de forma ainda mais intensa, habilidades cognitivas, linguísticas e motoras, ou seja, correm melhor, falam mais, ganham capacidade argumentativa, tudo o que toda a mãe sonhou que seu filho fizesse, o mais cedo possível. Mas quando eles finalmente atendem às nossas preces, falamos em “terrible two”… Nessa fase, a capacidade de compreensão é maior do que a capacidade de expressão. Eles entendem tudo, mas ainda não falam tudo. Espernear, gritar, chorar, se jogar aparecem como ferramentas argumentativas que substituem a fala e são, muitas vezes, mais eficazes. Nesses momentos, as mães que competiam sobre qual bebê falava mais rápido ou andava mais rápido sentem falta do bebezinho que trocava o dia pela noite, que perdia a chupeta no berço, que chorava de cólica. Naquele tempo, os olhares das outras mães eram tolerantes, solidários, já o choro argumentativo, “de birra”, só conta com o olhar de reprovação. 

Toda etapa de desenvolvimento tem seus desafios e eles sempre parecem enormes, porque são eles que estamos vivendo. Hoje Bento dorme a noite toda, quase sempre pelo menos, já não usa mais chupeta, mas faz manha, está cheio de energia às 10 da noite, enfim, os desafios são outros e também são cansativos, mas estão longe de serem “horribles”. Hoje preciso adivinhar menor o que ele deseja, pois quando ele quer de verdade, podem ter certeza, todo mundo vai saber… Hoje ele expressa melhor sua curiosidade, suas vontades, me desafia, claro, mas eu não diria que essa fase está sendo horrível. Está sendo exatamente tudo aquilo que eu desejei. Bento está desenvolvendo sua personalidade, falando sobre o que quer e o que não quer, descobrindo coisas novas. E, claro, exigindo de mim atenção, energia, limite. Converso com muitas mães diariamente e, apesar das preocupações e do mito dos “terrible twos”, elas seguem penteadas, maquiadas e muito orgulhosas de seus pimentinhas. 

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