Não há como negar que a distância das salas de aula trouxe perda no aprendizado – acadêmico – das crianças. Mas o que educadores e pais estão descobrindo é que, talvez, a quarentena tenha ensinado valores muitos mais profundos do que qualquer outro conteúdo curricular.

Ninguém sairá da quarentena da mesma forma que entrou nela”. Essa é uma máxima quase inquestionável e mais que recorrente nas conversas de família, entrevistas de tv, podcasts, redes sociais, revistas e onde mais houver uma plataforma para avaliarmos e discutirmos, coletivamente,  as consequências deste confinamento compulsório, que já entra no seu quarto mês. Porém, ainda mais concreto parece ser o impacto da quarentena em um público em particular: as crianças. 

Diante de uma rotina nunca antes experienciada e precisando adaptar-se à nova vida, os pequenos tiveram que passar por um balde de adaptações: cancelar festinhas e passeios, não ir mais à escola, passar a aprender pelas telas, usar máscaras para ir para a rua (quando necessário), viver confinados em casa com os pais trabalhando – e muitas vezes, sem a atenção merecida deles – não visitar amigos e família, etc. Como não se afetar por tantas mudanças, sobretudo na fase em que estão, justamente aprendendo sobre o funcionamento do mundo e como nos colocar dentro dele? Mas, será que as mudanças – e tantas perdas – deixarão marcas tão negativas na formação da personalidades deles como prevíamos? Ou, no final, tudo tem sido um grande e diferente aprendizado?

Quando feito o balanço das baixas para o desenvolvimento infantil, muito se fala da perda acadêmica que as crianças sofreram com os dias longe da escola e a tentativa – debatida à exaustão – da implantação e efetividade do ensino à distância. Mas, ao que tudo indica, ao consultarmos especialistas no assunto, apesar do impacto na aquisição do conteúdo curricular – Português, Matemática, Ciências, História – as crianças e jovens, na verdade, parecem estar apreendendo muito mais que qualquer escola poderia ensinar. Altruísmo, compaixão, resiliência, maleabilidade, autonomia, autorregulação – valores essenciais para uma vida adulta satisfatória. 

A psicóloga Alessandra Melo é uma das profissionais que acredita que os ganhos estão sendo mais positivos que negativos, até agora. “Eles tiveram que aprender novas competências –  como responsabilidade, colaboração, foco, criatividade e aprender a lidar com o novo.” Além disso, segue a profissional que atua há 12 anos com educação infantil, os pequenos tiveram que adquirir novas habilidades, fizeram novas descobertas, se reinventaram, reorganizaram a rotina. “Em meio ao caos, surgiu um acolhimento individual e familiar, e uma oportunidade de passar ter mais qualidade de tempo entre pais e filhos.”

A fisioterapeuta Carolina Pessoa de Barros concorda. Mãe de Felipe (9 anos) e Isabella (4 anos), a paulistana diz que percebeu uma mudança notável no comportamento das crianças durante os dias em casa, quando passaram a colaborar muito mais com as tarefas da casa do que antes. “Os dois estão ajudando mais nas funções domésticas diárias, como arrumar a própria cama, lavar louça, dobrar as roupas. Também vejo-os bem mais pacientes um com o outro.” Além de passarem a ser mais pacientes e autônomos em casa, Carolina diz que foi interessante observar a criatividade que eles tiveram que desenvolver. “Eles aprenderam brincadeiras novas – da minha época – como “telefone sem fio”, “passa-anel”, “amarelinha”. Felipe aprendeu a jogar bolinha de gude. Bella aprendeu a fazer cookies e tem adorado fazer receitinhas na cozinha. Muito legal ver isso!”

Segundo Rosely Sayão, psicóloga e educadora há mais de 30 anos, é justamente essa a beleza do aprendizado na quarentena: compaixão, resiliência, flexibilidade.  Em entrevista para a jornalista Ana Raia, Rosely afirmou que pais e mães não deveriam se preocupar tanto com a questão curricular nesse momento. “Estamos falando de potenciais 6 meses de pausa em 12 anos de uma vida escolar. Eles aprenderam menos Matemática ou Gramática – isso tudo se recupera. Mas as lições de compaixão e resiliência são muito maiores e mais importantes, e irão servir para a vida toda.”  

Também, ainda segundo Rosely, essa é uma boa hora para dar aos filhos a oportunidade de eles conquistarem autonomia em casa. “Principalmente porque a maioria dos pais, independentemente de classe social, sequestraram as melhores possibilidades de os filhos avançarem, na prática, nos processos de autonomia, porque escolhemos fazer por eles muito daquilo que eles já poderiam – e deveriam – fazer por conta própria. Considerando o processo de desenvolvimento dos mais novos, tudo o que eles já podem fazer sozinhos e alguém faz por eles, acaba por atrapalhar seu crescimento” escreveu Rosely em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo.

No entanto, apesar dos ganhos conceituais na formação do caráter das crianças parecerem ser mais expressivos até agora, alguns intelectuais ainda preocupam-se com as implicações acadêmicas para os alunos pós-pandemia. Para Paul von Hippel, professor associado da Universidade do Texas, onde ele ensina sobre Políticas de Educação e Métodos de Pesquisa, “quando as escolas reabrirem em setembro – SE as escolas reabrirem em setembro, nos Estados Unidos –  a maioria das crianças estará defasada em relação a onde deveriam estar se a escola tivesse continuado.” Ainda, segundo ele pontua em seu artigo para o site Education Next, a diferença na avaliação de desempenho escolar entre filhos de pais mais e menos educados terá crescido e muito mais crianças precisarão repetir a série. E o desafio para as escolas, será, sobretudo, saber quais alunos precisam de reforço, já que não terão visto eles nos últimos seis meses. “As escolas deverão focar investimento e esforços em fazer um diagnóstico de onde encontram seus alunos e, assim poderão saber quais foram as perdas com a pandemia – pelo menos as acadêmicas.”


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