Desde muito pequenas, principalmente as meninas costumam ser chamadas de “princesas” como um elogio. Apesar da expressão ser utilizada como forma de carinho, é importante refletir que essa denominação está carregada de estereótipos, representando as meninas e mulheres tais como grande parte das princesas dos desenhos infantis: valorizadas apenas pela sua beleza, submissas, recatadas, passivas e dependentes. Hoje, mais do que nunca, repensar a educação das nossas meninas e meninos se faz necessário. Neste contexto, o desprincesamento é um dos caminhos para que possamos criar garotas mais independentes, corajosas e destemidas, sem ter a beleza e o casamento como únicas conquistas almejadas. E meninos mais livres para expressarem seus sentimentos e vulnerabilidades. 

De acordo com a psicóloga feminista Lavínia Palma, especialista em psicologia clínica, o termo desprincesamento surgiu a partir de um projeto realizado em uma escola, no Chile, que trabalhava com a proteção de meninas em situação de risco. No local, foram criadas oficinas direcionadas às meninas, cujo objetivo era questionar as princesas. A iniciativa foi de uma psicóloga e uma socióloga. Foi, então, que a ideia inspirou outras profissionais e chegou ao Brasil.

“Sabemos que a educação de meninos e meninas é extremamente atravessada por estereótipos de gênero. No que tange às meninas, a educação costuma ser limitante, onde a menina deve se encaixar num ideal, que fala sobre a menina ser educada, bondosa e delicada.  Desta forma, elas encontram diversas barreiras e preconceitos, caso não estejam dentro deste modelo”, reflete.

Sendo assim, a palavra princesamento faz referência às personagens das princesas clássicas da Wall Disney, cuja maioria das histórias apresenta as personagens principais como meninas bonitas, doces e bondosas. “Além de terem sua aparência física valorizada, elas geralmente são meninas frágeis e recatadas, que são salvas por um príncipe belo e corajoso”, explica.

Apesar de essas personagens terem surgido no século 19, e mesmo com todas as transformações que ocorreram no mundo, as princesas clássicas ainda provocam grande encantamento. “Sejam as bonecas, fantasias, festas de aniversários… as princesas estão por todos os lados. Muitas meninas sonham ser como elas”, destaca. 

Os conteúdos consumidos pelas crianças acabam atuando como modelo e referência do que é ser uma menina. E os elogios, referindo-se a uma criança como princesa, apenas reforçam o comportamento estereotipado dos filmes. “Meninas crescem entendendo que precisam ser bonitas, considerando que o conceito de beleza é estabelecido pela cultura, e que precisam ter um relacionamento amoroso. Essas são as coisas que elas devem almejar”, afirma.

Já o desprincesamento, segundo Lavínia, é um processo necessário justamente para desconstruir esse pensamento e oferecer às meninas novas possibilidades de ser e de existir. “Construir a ideia que elas não precisam almejar ser uma princesa, mas que, caso se identifique com as mesmas, que possam entender que há formas de ser uma princesa.  Pessoas são diversas, diferentes cores e tamanhos; diferentes histórias e escolhas”, completa a psicóloga feminista.

Segundo a comunicadora Cila Santos, criadora do Militância Materna (@militanciamaterna), desprincesamento é um movimento criado para desconstruir o imaginário simbólico das princesas, que é sempre introduzido na socialização de meninas. “Para grande parte das princesas, seu único objetivo de vida é casar-se. Isso exige uma postura profundamente calçada em estereótipos de subalternidade, como docilidade, submissão, benevolência, hipervalorização da beleza como único atributo para atrair um homem. A ‘princesa’ é a propaganda perfeita da mulher bela, recatada e do lar”, afirma.

Além dos filmes, os livros, as histórias e os desenhos também apontam para as meninas como elas devem falar, se comportar e o que devem valorizar. Lavínia explica que a cultura mostra tudo o que as garotas não devem fazer, e isso impacta diretamente na sua formação. “Quando as meninas consomem os conteúdos de princesas, elas veem apenas uma possibilidade de existir. E uma possibilidade extremamente limitante e opressora. As mensagens passadas às meninas são basicamente essas: se preocupe em ser bela e doce; o casamento é a maior fonte de alegria para uma mulher; você será salva pelo seu príncipe; e mulheres são rivais”, exemplifica.

Para lutar contra essa realidade opressora, o desprincesamento desempenha o papel de questionar todos esses estereótipos e, ainda, encorajar as meninas a serem o que elas quiserem. 

 

Como pais e mães devem praticar o desprincesamento na educação das filhas? 

De acordo com a psicóloga feminista Lavínia Palma, especialista em psicologia clínica, que administra a conta no instagram @psicologalavinia, esse é um processo diário, que deve ocorrer sempre com muito diálogo. A profissional acredita que pais e mães devem estar presentes nos momentos de leitura e acessos à internet, promovendo questionamentos e reflexões em relação aos rótulos de gênero.  

“Outro ponto fundamental é oferecer novas possibilidades de desenhos e brinquedos às meninas, como brinquedos que não sejam ligados ao ato de cuidar, como bonecas e casinhas, nem à aparência física. Devemos mostrar às meninas histórias reais de meninas e mulheres que se destacam por sua coragem e inteligência, e não por suas características físicas”, orienta.

Lavínia acredita que, dessa forma, as garotas são encorajadas a fazerem outras escolas e serem como realmente desejam ser. A psicóloga feminista ainda pontua que as crianças aprendem por meio do modelo. Sendo assim, ainda na infância ela percebe e analisa as questões de gênero que começam dentro de casa, na relação entre seus pais. “Por exemplo, como se dá a divisão das tarefas domésticas; como é o vínculo entre eles; qual o lugar que a mãe ocupa no núcleo familiar, etc. As meninas precisam ver suas mães como pessoas completas e autônomas”, destaca.

De acordo com a comunicadora Cila, criadora do Militância Materna, pais e mães precisam ter um pensamento mais crítico em relação aos ideais de casamento, filhos, beleza e, principalmente, da centralidade dos homens na vida das mulheres. “’Desprincesar’ sua filha é evitar que ela cresça acreditando que a vida só será completa e plena quando ela finalmente estiver em um relacionamento romântico, e fazer com que ela passe a vida buscando isso, e pagando qualquer preço por isso, submetendo-se”, pontua.

 

Os meninos também devem fazer parte da cultura pelo desprincesamento?

Para a psicóloga feminista Lavínia Palma, especialista em psicologia clínica, uma educação feminista e anti-sexista deve ser para todas as crianças. Ela ainda afirma que, para vivermos em um mundo com equidade de gênero, é fundamental que ocorra uma desconstrução de ambos os lados. “É ineficaz empoderar as meninas se não ensinarmos os meninos a lidarem com essas igualdades.  Meninos precisam ver as meninas como companheiras e não num lugar de inferioridade. Eles precisam abrir espaços para elas e saber que elas também podem estar onde quiserem.  Desta forma, eles podem entender que meninas são fortes o suficiente para se salvarem sozinhas”, enfatiza.

Assim como deve ser praticado na educação das meninas, também é necessário ensinar aos meninos que brinquedos, cores e profissões não têm gênero. “Eles também devem ter liberdade de escolhas, sem que isso implique em ser ‘menos homem’. Devemos oferecer a eles outras possibilidades que não somente esportes e brinquedos tidos como de meninos. Eles também podem e devem brincar de boneca e casinha, por exemplo. Um dia, eles terão sua casa e sua família, e terão que estar preparados para atuar de forma madura”, pondera.

A comunicadora Cila Santos reflete ainda que, para cada princesa há a ideia de príncipe, que é caracterizado como o homem bom, que vai salvar a personagem principal. “O príncipe é o salvador, o heróico e o belo, sem precisar de nenhum esforço, sem precisar ter nenhum mérito para ser amado e disputado. E isso também está no cerne do pensamento machista, que move nossa sociedade: homens salvando o dia e se sentindo sempre muito importantes, e mulheres sempre frágeis e belas à espera”, finaliza.


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