Trabalhar mais e ganhar menos; ser vítima de violência doméstica; não ter representação na política; e estar à margem da sociedade. É um grande desafio ser mulher em um país que ainda tão desigual em gênero: patriarcal, machista e misógino. Mudar este cenário tão cruel para as mulheres é urgente e, por isso, repensar a educação das meninas é fundamental. É precisar criar as meninas para serem corajosas no lugar de perfeitas. 

“A sociedade machista exige que as mulheres tenham coragem para enfrentar a violência misógina nos diferentes contextos de sua vida. A vivência infantil é essencial para o desenvolvimento dessas habilidades. Mas não é só isso. As crianças são nossa possibilidade de mudança. Incentivar meninas a serem corajosas é sobre retirar delas a cobrança da perfeição, do comportamento constante de ser boa o suficiente em todos os contextos”, ressalta a psicóloga Ana Claudia Delajustine, que é mestre em direitos humanos. A profissional ainda destaca a importância de estimular as meninas a ter autonomia e independência, e que elas não precisam de uma outra pessoa para condicionar a felicidade.

De acordo com a psicóloga Ludmila Carvalho, a única forma de mudar a cultura sexista e machista do Brasil, onde as meninas são criadas para serem submissas e assumirem tarefas domésticas, é incentivando a coragem. “Em geral, é muito comum elogiarmos as meninas por sua beleza, por sua delicadeza, por sua feminilidade, reproduzindo essa lógica de fragilidade feminina. Assim, ao incentivarmos a coragem, é possível mudar essa cultura”, explica.

Para a psicóloga Regiane Soares, estimular as meninas a serem destemidas também é uma forma para prevenir a violência e o assédio. “Educar meninas para que sejam corajosas é transmitir, através do incentivo e do cuidado, sua proteção e prevenção contra o assédio, a violência de gênero, relacionamentos abusivos, violência doméstica, e tantas outras opressões que mulheres sofrem, pelo simples fato de ser mulher”, destaca.

E é sendo valente ainda na infância que as mulheres terão mais facilidade para serem empoderadas na fase adulta. “É importante para que elas cresçam com autoestima elevada, confiantes de si e, acima de tudo, mulheres com inteligência emocional e expertise de resolução de conflitos em quaisquer âmbitos da vida”, reflete a psicóloga Mariana Lino.

 

Como pais e mães podem incentivar as filhas a serem destemidas?

A psicóloga Regiane Soares acredita que o primeiro passo é desconstruir todo estereótipo do que é feminino e masculino. “Tudo que está imposto para mulheres e homens, do que é uma mulher, como deve se comportar, o conceito de feminilidade, o seu papel na sociedade, são construções sociais, e as crianças precisam saber isso desde cedo. Meninas precisam brincar livremente, e não somente de boneca, precisam entrar em contato com todas as suas emoções, sendo guiadas pelos seus cuidadores”, recomenda.

Regiane ainda reforça a importância de estimular as meninas a estudarem, inclusive sobre política para que possam lutar pelos seus direitos. “Enquanto mulheres gastam energia e tempo em unha, cabelo, pele e maquiagem, homens estão estudando para ocuparem espaços de poder no trabalho, na política, ditando o e será de direito da mulher, precisamos mudar isso”, exemplifica. Ainda para Regiane, é necessário educar as filhas para almejarem independência financeira.

Ainda neste contexto, a psicóloga Ludmila Carvalho fala da relevância de permitir que as meninas possam se arriscar nas brincadeiras. “Brincadeiras de super-herói, brincadeiras de disputa e jogos de tabuleiro, por exemplo, sem estimular a competitividade e punir o fracasso, mas ressaltando o aspecto lúdico de se arriscar, elaborar estratégias para tentar vencer, mas também reconhecer que perder faz parte”, pontua.

Já a orientação da mestre em direitos humanos Ana Claudia Delajustine, é para a família fazer a divisão das tarefas domésticas. “Pais devem dividir as tarefas domésticas. Meninas que crescem vendo a mãe ser responsável pelo trabalho doméstico enquanto o pai levanta da mesa e vai para o sofá, têm uma forte probabilidade de repetir o comportamento quando adultas”, afirma.

Segundo Ana Claudia, a educação sexual também é imprescindível. “É importante falar sobre consentimento: explicar onde em seu corpo o toque é permitido, e onde não. Criar meninas corajosas e destemidas é falar sobre igualdade de gênero, no discurso e na prática”, esclarece.

 

Quais atitudes devem ser evitadas para não desencorajar as meninas?

Para a psicóloga Mariana Lino, uma das situações que desencorajam as meninas é a comparação com outras crianças. “A menina pensa que seus pais não gostam tanto dela e, sim, da outra criança que a compararam. Então, consequentemente, a menina inicia um processo de querer tornar-se igual a esta criança para obter a aprovação dos pais, fazendo com que perca a confiança em si mesmas e abalando sua autoestima”, declara.

Outro ponto que deve ser evitado é incentivar que as filhas sigam padrões de beleza impostos pela sociedade. “Podemos ver a representatividade de padrões de beleza e estilo de vida até mesmo em alguns brinquedos e com isso as meninas já crescem querendo seguir estes padrões”, afirma Mariana.

A psicóloga Ana Claudia Delajustine, mestre em direitos humanos, ainda recomenda aos pais evitarem a divisão desigual de tarefas domésticas, principalmente quando há irmãos;  não culpar as garotas em caso de assédio e/ou comportamento abusivo na escola ou em meios sociais; jamais falar sobre o corpo da menina de maneira sexualizada; e, ainda, não supor que a filha irá desejar a maternidade e/ou o matrimônio. “Deixe-as livres para escolher. No final, é muito mais sobre permitir que elas possam exercer sua individualidade do que proibir qualquer comportamento”, destaca.

Neste contexto, a psicóloga Regiane Soares completa ressaltando a importância de impulsionar as meninas para que elas sejam e realizem o que quiserem. “Algumas atitudes que desencorajam as meninas, são: vesti-la apenas com rosa; não deixar fazer coisas ditas para meninos, como por exemplo jogar bola, brincar de carrinho, soltar pipa e gostar da área de exatas na escol; e chamar apenas as meninas para as tarefas domésticas”, explica.

 

16 livros e filmes infantis para encorajar as garotas

A pedido do Family Center, as profissionais entrevistadas indicaram 7 livros e 9 filmes para tornar as meninas ainda mais corajosas e destemidas:

Livros:

– Para educar crianças feministas, de Chimamanda Ngozi Adiche

– Histórias de ninar para garotas rebeldes, de Francesca Cavallo

– Malala, a menina que queria ir para a escola, de Adriana Carranca

– Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil, de Duda Porto de Souza

– Coleção antiprincesas, de Nádia Fink e Pitu Saá

– A vida não me assusta, de Maya Angelou

– Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque 

 

Filmes:

– Valente

– Pocahontas

– Moana

– Frozen

– Lillo e Stitch

– Mulan

– A Viagem de Chihiro

– Zootopia

Alice no país das maravilhas

 

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