O assunto é delicado e, quando acontece, costuma deixar muitos pais e cuidadores apavorados. Afinal, quem já viu uma criança engasgada, sabe o quanto a situação é desesperadora. Entretanto, saber como agir, e ter o conhecimento sobre o que não se deve fazer nesse momento, podem ser decisivos.

Em 2016, aproximadamente 825 crianças, de zero a 14 anos, morreram vítimas de asfixia acidental no Brasil. Os dados são da ONG Criança Segura, com base nos registros do Ministério da Saúde. Ainda de acordo com a organização, crianças menores de 4 anos estão na lista das mais vulneráveis a situações de engasgamentos, uma vez que as vias aéreas superiores, como a boca, garganta, esôfago e traqueia, ainda são pequenas. Outro fator é que, nesta faixa etária, há uma tendência natural de colocar os objetos na boca.


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O número impressiona e, sem dúvida, essa é uma situação que ninguém gostaria de vivenciar. Porém, não há como fugir da realidade: ou seja, se você tem criança em casa ou é cuidador de algum “baixinho”, precisa estar preparado para prestar os primeiros socorros em situações de emergência, como em casos de engasgo.

É uma cena difícil, mas os pais ou responsáveis precisam agir o quanto mais rápido possível”, destaca o capitão Marcos Palumbo, porta-voz do Corpo de Bombeiros da cidade de São Paulo.

 

E você sabe qual a maneira correta para ajudar essa criança?

Normalmente, as alternativas mais comuns dos pais ou cuidadores ao perceber que a criança está engasgada é oferecer água, colocar as mãos na boca da vítima ou virá-las de cabeça para baixo. Mas, atenção: essas alternativas não são seguras! Aliás, elas são contraindicadas pelos especialistas, pois podem agravar ainda mais o quadro. Falaremos mais sobre isso ao longo do texto.

Antes de tudo, para saber exatamente como socorrer os pequenos, é preciso compreender que existem dois tipos de engasgo. Vamos a eles:

Engasgo parcial: quando ainda passa um pouco de ar, porém não a quantidade ideal para a crianças respirar normalmente. Nesse caso, ela apresenta tosse rouca e chiado no peito.

Engasgo total:  quando as vias respiratórias ficam completamente obstruídas. Neste caso, a criança não consegue falar, nem tossir e fica com lábios arroxeados devido à falta de ar.

Nas duas situações, o cenário é agoniante. Entretanto, é preciso manter a calma para ajudar, de maneira segura, essa criança a desengasgar.

Ou seja: respire fundo e assuma o controle da situação!

 

Conheça a manobra de Heimlich e saiba como fazer:

Você percebeu que a criança está tossindo, com dificuldade de respirar e nota que ela coloca as mãos no pescoço? Segundo o capitão Palumbo, esses são sinais claro de que a criança pode estar engasgada. Ao observar esses sintomas, a recomendação dos bombeiros e socorristas é fazer a manobra de Heimlich – um procedimento de primeiros socorros utilizado em casos de emergência para desobstrução das vias aéreas.

O método utiliza as mãos da pessoa que está socorrendo para fazer pressão no diafragma da vítima. Esse movimento possibilita que o objeto seja expulso pela boca, liberando a passagem de ar.

Para realizar a técnica, o adulto deve se posicionar atrás da vítima e abraçar a criança. Provavelmente, será necessário agachar para ficar da mesma altura, facilitando assim a realização da manobra.

“Deixe uma das mãos com o punho fechado e coloque a outra mão por cima para comprimir a região abaixo das costelas, que é onde está o diafragma, localizado na altura da boca do estômago”, explica bombeiro e socorrista Julio César Martins Leal. “Faça movimentos para cima, até que o objeto seja deslocado da via aérea para a boca e jogado para fora, permitindo assim o retorno dos sentidos e da respiração”, completa. O procedimento é indicado para crianças maiores de 1 ano.

 

Mas e se no momento do nervosismo eu me atrapalhar na manobra?

Sem dúvida, saber executar manobra de Heimlich é um fator decisivo para salvar uma vida. Porém, na hora do desespero, é comum ficar nervoso e acabar não lembrando com exatidão dos detalhes de como realizar o procedimento. Por isso, deixe anotado e mantenha sempre com você algum número de emergência, como o 192, que é o atendimento do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) ou o 193, telefone do Corpo de Bombeiros. Profissionais especializados e capacitados podem auxiliar por telefone sobre como fazer a manobra e, simultaneamente, uma viatura é enviada para o endereço da ocorrência.

 

O que não devemos fazer durante o engasgo?

Ao ver uma criança engasgada, é nosso instinto querer imediatamente ajudá-la. Mas, na hora do desespero, algumas atitudes podem colocar ainda em mais risco a vida dessa criança. Por isso, o primeiro passo será sempre manter a calma.

Jamais coloque suas mãos na boca da vítima na tentativa de retirar o objeto que está causando o sufocamento. “Só faça isso caso o objeto esteja visível e você tenha certeza de que vai conseguir puxar para fora. Do contrário, há o risco que empurrar ainda mais para a garganta o que está causando o engasgo”, alerta o bombeiro e socorrista Julio César Martins Leal. Na dúvida, evite tentar retirar o objeto com as suas mãos.

Também não ofereça água. “O líquido pode desencadear um problema mais sério, pois corre o risco do alimento ou objeto ir para o pulmão”, afirma. Virar a criança de cabeça para baixo e “chacoalha-la” também não é indicado e pode assustar ainda mais o pequeno, que já está aflito com a situação do engasgo.

Ainda na tentativa de ajudar a vítima de engasgamento, é comum muitas pessoas tentarem fazer respiração “boca a boca”. Porém, esse procedimento também não é recomendado, pois dificulta a respiração e pode “empurrar” ainda mais o elemento que está provocando a asfixia.

 

Conheça os principais vilões:

Além de saber como agir e também quais atitudes devemos evitar, alguns cuidados dentro de casa podem ser fundamentais para prevenir esse tipo de acidente. “Todo objeto pequeno, que a criança pode colocar na boca ou no nariz, não deve ficar ao alcance dela. Evite, inclusive, comprar brinquedos com peças pequenas ou que tenha peças menores que se soltam”, orienta o capitão Palumbo.

Ele cita que os principais causadores de episódios de engasgo costumam ser: feijão, arroz, pedaços de frutas (como maçã), peças de brinquedos, bolinhas de gude, pilhas, baterias, irmãs, tampas de caneta, moedas, botões parafusos e balas. “No caso das comidas, não significa que você não deve mais oferecer. Esses alimentos devem continuar, sim, fazendo parte do cardápio da criança. Mas fique atento a quantidade que a criança coloca na boca e fique sempre supervisionando. Tomate cereja e ovos de codorna, por exemplo, nunca dê inteiro. Primeiro corte e depois ofereça para seu filho”, recomenda.

 

Mantenha atenção redobrada na hora da refeição

Os mais antigos já diziam que o momento da refeição é uma hora sagrada. Manter esse pensamento pode ser uma boa estratégia na prevenção de acidentes. “Não dá para deixar a criança completamente à vontade, correndo para lá e para cá. Tem que sentar para comer, mesmo que esteja em uma festa de aniversário”, orienta Palumbo.

Os pais e/o responsável devem sempre lembrar aos pequenos para mastigarem completamente o alimento antes de engolir. Outro alerta importante para as famílias com mais de um filho é que elas precisam ficar atentas para os maiores não colocarem nada na boca dos caçulas.

Ambientes muito agitados, conversas paralelas e televisão ligada podem distrair a atenção da criança durante a refeição. Procure manter o ambiente calmo e tranquilo e nunca deixe a criança comendo sozinha!

“Agora não brincamos mais ao comer! Esse foi o meu aprendizado”

Rudá é um garotinho de 3 anos e 8 meses que sempre comeu enquanto brincava. Mas um grande susto mudou completamente esse hábito na família.

“Sempre o deixei à vontade enquanto comia. Se quer ficar sentado, ótimo, se não quer, lá ia eu atrás enquanto ele brincava. Minha teoria era que nós adultos comemos conversando, criança se entedia ao ficar sentada para comer e quer brincar. Mas aprendi que essa teoria pode ser perigosa”, conta a doutra em ciências e doula Carolina Tenorio Daussat, que é mãe do Rudá.

Eles estavam em uma festa, quando o filho pegou um pedaço de beterraba crua, cortada em palito, e foi brincar. Depois de um tempo, Carolina lembra que o pequeno voltou assustado e tossindo bastante. “Tentei virá-lo na horizontal, ele pediu água e depois do desespero sentiu-se melhor, voltou a comer e brincar”, afirma.

A família retornou para casa por volta das 21h30 e, foi então, que a mãe percebeu que o filho estava com a respiração mais forte e apresentava um chiado. Carolina afirma que na hora já resolveu levá-lo para um hospital. “Meses antes eu havia lido um relato sobre aspiração e isso ficou gravado em mim. No nosso caso, assim que cheguei em casa e o ouvi chiando, não hesitei nem um minuto. Sabia que havia ocorrido a aspiração do alimento durante o engasgo”, destaca. O pequeno ficou em observação até o outro dia, quando foi realizada uma cirurgia para retirada do objeto: um pequeno pedaço de beterraba. Rudá teve alta apenas no dia seguinte, e precisou realizar sessões de fisioterapia respiratória, além de tomar antibióticos e corticoides por sete dias.

“Foi o maior e mais terrível susto da minha vida. Com muita conversa, agora não brincamos mais ao comer! Esse foi o meu aprendizado. Mesmo sendo um acidente e não estando livre de acontecer, aconteceu. A gente fica atento a tantas coisas, tipos de comida que devemos evitar, e etc, mas um pedaço de beterraba, essa seria a última coisa imaginável. E, não, não tomei pavor da beterraba. Mesmo ela sendo a materialização desse nosso terrível susto, a nossa lição é essa: comer sem brincar! Depois desse susto ele aprendeu que hora de comer é com calma e jamais andando ou correndo e pulando. Sempre sentado e com respeito ao momento de se alimentar”, completa.

 

“Lei Lucas” entrará em vigor a partir de abril de 2019

Sancionada pelo presidente Michel Temer (PMDB) no dia 4 de outubro deste ano, a “Lei Lucas” entrará em vigor a partir do dia 5 de abril de 2019. Com isso, passará a ser uma exigência nacional a capacitação em primeiros socorros para funcionários de escolas públicas e privadas de ensino infantil e básico. O objetivo é dar suporte adequado para os estudantes em situações de emergência.

A lei é uma conquista da advogada Alessandra Begalli, que perdeu o filho Lucas, de 10 anos, vítima de engasgamento. No dia 27 de setembro de 2017, o garoto, que estudava em uma escola particular em Campinas, participava de uma excursão. Na hora do lanche, ele se engasgou com um pedaço de salsicha do cachorro-quente.  

A falta de um adulto que soubesse aplicar a manobra de Heimlich foi crucial. Quando a equipe do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou, já era tarde. Lucas apresentava sinais de morte cerebral. Ele foi levado ao hospital, porém, teve sete paradas cardíacas e após 50 minutos tentando reanimá-lo, o pequeno não sobreviveu.

Desde, então, sua mãe se empenhou na luta para obrigar as escolas a oferecerem cursos de primeiros socorros aos funcionários. “A Lei Lucas se tornou federal em apenas oito meses, tempo recorde para a aprovação de uma lei no país. Uma luta árdua que temos travado, primeiramente nos municípios e estados e que agora se tornou uma realidade em todo país. Sinto que meu filho Lucas ficará eternizado e que salvará muitas vidas. Estou muito emocionada com a lei, pois o país entendeu a importância dela, reconheceu a nossa luta e vemos agora a sementinha que o Lucas nos deixou, se espalhar! A morte dele não foi em vão!”, afirma.

Com a nova legislação, Alessandra acredita que o conhecimento de primeiros socorros dentro das escolas, como a manobra de Heimlich, será determinante para salvar a vida de muitas crianças em caso de emergência. “Uma pessoa treinada em primeiros socorros pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte de alguém ou entre uma vida plena e saudável e uma vida com sequelas. Ter um socorrista ao lado da vítima é muito importante em casos de emergências graves, como por exemplo, o engasgo. Os primeiros socorros comprovadamente salvam vidas!”, destaca a mãe de Lucas.

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