A quarentena vivenciada em todo o Brasil trouxe ainda mais desafios para casais separados que compartilham a guarda dos filhos. Muitas famílias precisaram ajustar a rotina, outras abriram mão de alternar os dias com as crianças e tem até quem optou em voltar a morar junto para facilitar a rotina durante o período de isolamento social. 

Antes da pandemia, o pequeno Ravi, de 3 anos, filho da professora de yoga Maria Luiza Consolim, de 37 anos, dormia duas vezes na semana na casa do pai, e os fins de semana com o menino também eram revezados. Entretanto, após ter início o isolamento social no país, Maria Luiza e o ex-marido decidiram adaptar a rotina do filho.

“Agora estamos intercalando os dias, um dia ele fica comigo e no outro com o pai. Foi a forma que encontramos para que manter minhas aulas de yoga on-line e também para o Ravi brincar todos os dias ao ar livre”, explica a mãe, que mora em um apartamento, enquanto o pai de Ravi mora em uma chácara. 

E o pequeno aprovou a mudança no dia a dia. “Ravi tem curtido a beça. O pai brinca muito, inventa mil brincadeiras na natureza, barro, árvore e tudo mais. Ele tem desfrutado de pais mais presentes”, avalia.

 

Visitas suspensas

Já a professora Ana Clara Borges*, de 27 anos, optou por não deixar mais a filha Julia*, de 5 anos, ir visitar o pai. Antes, a menina ficava os fins de semana, a cada 15 dias, com o pai, que reside na capital paulista. Já mãe e filha moram no interior do Estado de São Paulo.

“Desde o começo da quarentena a gente sabe que o maior foco de transmissão tem sido na cidade de São Paulo. Por ele morar lá, a família dele ser grande e tem pessoas na família dele que não pararam de trabalhar, eu tomei a decisão de não deixar ela viajar. Foi um pouco a contragosto dele, mas chegamos à conclusão que não seria muito prudente neste momento”, ressalta. 

 Com a nova dinâmica, Ana Clara afirma que foi preciso fazer adaptações. “A gente intercala o aniversário dela. Cada ano ela passa essa data com um dos pais. Este ano ela passaria o aniversário com ele, mas não foi possível. Tudo foi por chamada de vídeo, mas a festinha foi cancelada”, explica. 

Há mais de 60 dias sem vê-lo presencialmente, Julia tem falado com o pai por chamadas de vídeos com mais frequência. “Eles têm conversado muito mais, porque antes ele ligava todos os dias por chamada de vídeo para conversar um pouco depois da escola e durava 15 minutos, até porque ela não gosta de falar no celular. Mas agora as chamadas de ligação têm durado cerca de 1h”, conta.

Para administrar toda a demanda de trabalho, da casa e da filha, a professora tem a mãe como rede de apoio, que divide os cuidados com a neta. “Eu estou bem mais sobrecarregada. Então, no momento conto com a ajuda da mãe. Metade da semana ela fica comigo e a outra metade com a minha mãe. Nós somos praticamente vizinhas e a mãe está isolada também”, pontua.

 

Separados, pais voltam a morar juntos durante a quarentena

Separada há dez meses do pai de seus dois filhos, a pesquisadora Laura Gimenes*, de 41 anos, optou por voltar a morar com o ex-marido durante o isolamento social. Ela morava com os meninos, que tem 7 anos e 10 anos, em um apartamento. Já o pai dos garotos mora em um sítio, onde a família toda está vivendo no momento.

Em março, Laura voltou de uma viagem internacional que tinha feito sozinha, à trabalho. Assim que chegou, o caçula apresentou sintomas de gripe e a pediatra pediu para a família fazer o isolamento.

“Não tinha como fazer isolamento sozinha com os meninos e sair para o básico, como compras, por exemplo. Além disso, conversamos bastante e achamos mais prudente estarmos juntos, caso acontecesse alguma coisa, como umas das crianças piorar e ter que ir ao hospital no meio da noite. No momento tudo era bem incerto e ninguém tinha muita noção do que esperar. Achamos mais fácil assim, ficar todos nós no sítio”, explica. 

Além disso, com a quarentena Laura passou a fazer home office e, para conciliar o cuidado com os filhos, a pesquisadora ponderou que seria mais difícil trabalhar e ficar sozinha com as crianças no apartamento.

De acordo com Laura, os filhos se adaptaram com tranquilidade à nova rotina. “Os meninos estão felizes, porque tem espaço para brincar, mas também porque mexe com eles ter o pai e mãe juntos, na mesma casa”, afirma. Porém, ela ressalta que as crianças sabem que, quando findar o isolamento, mãe e filhos retornarão ao apartamento.   

Quem também resolveu voltar a morar com o ex durante a pandemia foi a atriz Carolina Ferraz. Ela e o médico Marcelo Martins, que foram casados durante oito anos e são pais da Isabel, de 5 anos, decidiram ir juntos para um sítio durante o isolamento. 

 Em uma live, a atriz contou que a decisão ocorreu pensando na segurança em estarem juntos nesse período, sem riscos de exposição ao vírus, já que anteriormente a menina se revezava entre a os apartamentos do pai e da mãe. 

*Os nomes são fictícios, para preservar a identidade das fontes.

 

O que dizem os especialistas

Segundo a psicóloga Mariana Balardin, a quarentena trará, e já está trazendo, prejuízos para a saúde mental da maioria das pessoas. “Uns sofrerão mais, outros menos. Mas todos sentirão de alguma forma. Se já é difícil para os adultos o isolamento e as diversas repercussões que surgem a partir disso, para as crianças também existe sofrimento e a sensação de privação de várias necessidades emocionais. É uma realidade muito dura e ainda sem perspectiva de retorno à normalidade. Praticamente, um cenário emocional de guerra, como muitos já estão falando”, pontua. 

Por isso, a profissional acredita que o melhor que os pais separados podem fazer para os filhos durante a pandemia é avaliar as necessidades das crianças e o contexto de cada família. “Cada família possui uma realidade e recursos diferentes para lidar com tudo o que se passa. Por exemplo: alguém na família está no grupo de risco? Colocam alguém em risco com a guarda compartilhada? Conseguem efetivamente manter a rotina de guarda compartilhada com as necessidades da pandemia? Como está a relação da família e dupla parental? Como as crianças se sentem melhor neste momento?”, questiona. Para Mariana, essas são algumas questões que precisam ser respondidas antes de decidir se a guarda continua compartilhada durante o período de isolamento social ou não. 

Para os pais que decidiram voltar a morar juntos para enfrentar a pandemia, ela afirma que é preciso ter cuidado como isso será apresentado para os filhos. “Para as crianças costuma ser uma situação naturalmente confusa, porque contradiz a realidade que foi apresentada antes: a separação. Contradiz, inclusive, um processo de luto pela separação que muitas vezes ainda está em processo de elaboração. Nesse sentido, se após ser pesada na balança, essa possibilidade for a mais viável para a família, é importante conversar muito e explicar de forma muito clara que os pais/mães não voltaram a ser um casal e o objetivo de estarem todos juntos”, afirma. 

Caso a relação da dupla parental não esteja bem resolvida, Mariana ressalta que é importante buscar ajuda psicológica para que os conflitos e dúvidas do casal não invadam e não confundam os filhos. “As crianças podem criar esperanças e sofrer pela sensação de não saber o que podem esperar com este retorno”, pontua.

Já nas situações em que a criança precisa ficar longe de um dos pais, ou até mesmo dos dois, a psicóloga afirma que é fundamental acolher e escutar a criança em suas demandas. E ela adianta: é possível que ocorram inúmeras alterações no comportamento. “E é necessário compreender o que isso sinaliza, para então buscar supri-la dentro do que for possível, de forma honesta, mas sensível. O diálogo é fundamental, reconhecendo as emoções, nomeando as mesmas e explicando numa linguagem acessível sobre o que se passa”, recomenda. 

De forma simples, explique para a criança o motivo da distância e porque tais cuidados são necessários no momento. “E, é claro, é importante diminuir essa distância ao máximo, buscando interações de qualidade e com constância, mesmo que seja por telefone ou aplicativos. Isso envolve também a frequência e o cumprimento de combinados: se você combinou que irá ligar à noite, ligue. Se por algum motivo não for possível, avise e ligue quando for possível”, orienta.


Confira também:
Síndrome de burnout durante a quarentena: pais estressados e filhos ansiosos


 

Escrever um comentário