O estresse contínuo e excessivo provocado em alguns ambientes de trabalho podem desencadear a síndrome de Burnout, caracterizada por um estado de exaustão emocional, mental e física. “O burnout é uma síndrome específica de exaustão relacionada a situações prolongadas de desequilíbrio emocional, onde a carga do estresse percebido excede os recursos pessoais para lidar com a situação”, explica a psicóloga clínica Valeri Guajardo, que também é mestre em ciências, especialista em psicologia hospitalar e educadora perinatal

Sem dúvida, você consegue imaginar determinados cargos e carreiras que são tensos o suficiente para provocar tamanho desgaste. Porém, você sabia que a maternidade e/ou a paternidade também podem levar a esse mesmo nível de exaustão? Apesar de ser associado às questões profissionais, Valeri afirma que desde a década de 80, estudos estenderam o conceito para pais de crianças enfermas, que ficavam exaustos no papel de cuidadores, definindo-os como burnout parental.  

“Em 2015, porém, um grupo de pesquisadores começou a investigar o burnout parental com pais de crianças saudáveis, e concluiu que 14% dos pais estavam com a síndrome”, contextualiza.

Apesar de ser estudada há bastante tempo, o burnout acaba, na prática, não recebendo a atenção e diagnósticos devidos, como acontece com grande parte das doenças mentais. 

A psicóloga clínica e da saúde Ana Gomes e a blogger de maternidade Inês Maia, que são Fundadoras do projeto Pais a Bordo – todos juntos no mesmo barco (um programa de prevenção e intervenção ao Burnout), lembram que apenas em 2019 o burnout foi incluído na lista de síndromes da OMS (Organização Mundial da Saúde). 

“É importante falar sobre esta síndrome e ter em conta que uma das principais consequências são os maus tratos dirigidos a crianças. A síndrome de Burnout ocorre tanto em homens como em mulheres, em qualquer idade, desde que exista uma exposição intensa e frequente a distress, ou seja, stress negativo”, afirma.

Quem está mais propenso a ter a doença?

Segundo Ana e Inês, existe uma maior probabilidade para desenvolver a síndrome pessoas que são extremamente exigentes consigo mesmas, mães/pais divorciados ou em casamento cujo companheiro/a não apoia, famílias com mais do que um filho, famílias com adolescentes, famílias com crianças que tenham doenças crônicas ou famílias carenciadas.

De acordo com a psicóloga Aline Boschi Neves, a síndrome de burnout parental pode ocorrer justamente devido às mudanças que ocorrem após o nascimento de um filho (a), pois trata-se de uma fase repleta de desafios, medos e anseios. Entre dificuldades que passam a ser vivenciadas, a profissional lista a recuperação do pós-parto, as alterações hormonais, a preocupação com a rotina do bebê, as noites em claro e até mesmo a cobrança da sociedade quanto carreira e maternidade.

“Assim, a somatória de todo esse estresse é o Burnout, que pode se manifestar em pais, mães e cuidadores. Contudo, a mãe que está presente desde a gestação e passa por maiores mudanças é o maior índice. Todavia, não podemos considerar os pais e cuidadores que participam ativamente da vida dos filhos e, muitas vezes, por alguma eventualidade até assumem essa função total da mãe”, pondera.

Entretanto, Valeri ressalta que a síndrome de burnout parental pode ser confundida com depressão pós-parto. Contudo, o que difere os diagnósticos é que o burnout ocorre em famílias com crianças acima de 18 meses de vida.

 

Os sintomas de burnout parental

Segundo a psicóloga clínica Ana Flora Medeiros, que é mestre em psicologia do desenvolvimento, especialista em neuropsicologia e pós-graduada em parentalidade e educação positivas, os sintomas de burnout parental estão relacionados com a exaustão emocional relacionada ao papel parental, ou seja, quando os pais acham que o relacionamento com os filhos exige um envolvimento em que eles não são capazes de lidar.

“O pai e/ou a mãe sentem-se cansados logo ao acordar e pensar na rotina intensa que precisam enfrentar durante o dia com os filhos; imaginam que não conseguem ser bons pais devido a sua incapacidade de atender a todas as demandas dos filhos da maneira que idealizaram”, afirma.

Entre os sintomas, Ana Flora aponta ainda que há distanciamento emocional dos filhos; sentimento de ineficácia no papel parental, com a sensação de não conseguir resolver os problemas de forma pacífica ou assertiva; isolamento; cobranças pessoais excessivas; comprometimento a nível cognitivo como esquecimento e falta de concentração; apatia e irritabilidade; alterações do sono; e até mesmo incapacidade de realizar gestão emocional.

As fundadoras do projeto Pais a Bordo – todos juntos no mesmo barco, Ana Gomes e a blogger de maternidade Inês Maia, ressaltam ainda que trata-se de uma síndrome emocional que pode trazer consequências na saúde física, sendo que, muitas vezes, o diagnóstico é apenas realizado após algum problema de saúde física ser detectado, como por exemplo, cólon irritável ou infeção urinária.

“O outro sintoma comum é a despersonalização, ou seja, a pessoa não parece mais a mesma. Está diferente, mais impaciente, mais irritada, mais irônica e com maior labilidade emocional. A família já não reconhece a pessoa que tem em casa e a própria pessoa admite que não se sente como antes”, afirmam.

 

Como lidar e tratar o Burnout

Antes mesmo de falar sobre os tratamentos, é preciso deixar claro que estar cansado, exausto e até mesmo estressado com toda a demanda de criar um filho (a) não é sinônimo de ser uma pessoa ruim. A rotina de ter uma criança em casa é intensa e, realmente, há quem precise de ajuda para poder administrar melhor a nova dinâmica familiar. 

“É preciso que os pais percebam que a exaustão parental não é sinônimo de ser mal pai ou mãe, e é necessário partilhar esse sentimento com familiares e amigos”, enfatiza a psicóloga Ana Flora Medeiros.

Para a psicóloga Aline Ribeiro Cestaroli, que é coach, consultora em encorajamento, educadora de pais e professores, além de coautora e coordenadora do livro “Conectando Pais e Filhos”, o primeiro passo para lidar com a síndrome de burnout parental é procurar ajuda profissional logo que perceber os primeiros sintomas.

Já para combater a síndrome, a dica da Aline é priorizar o autocuidado. “Conciliar todos os papeis, vida pessoal e profissional, não é nada fácil! Com a correria do dia a dia, é normal se deixar de lado, não conseguir se priorizar e cuidar de si. Toda essa demanda acaba sendo exaustiva e, se não for cuidada, pode levar ao esgotamento físico e emocional. Faça uma lista das coisas que gostaria de fazer por si, que te renovam a energia e geram bem-estar. Transforme esses itens em metas e se comprometa consigo mesma”, aconselha.

De acordo com Ana Flora, alguns ajustes na rotina também podem auxiliar nesse processo, como ter mais tempo de qualidade em família e com menos uso de tecnologia. Ela também afirma que é necessário pedir ajudar de pessoas confiáveis nos cuidados com as crianças, construindo, assim, uma rede de apoio. “Aprenda a fazer escolhas sobre o que é mais importante no dia, como por exemplo: uma casa extremamente organizada ou um momento de descontração com os filhos”, indaga.


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