A quarentena trouxe, dentre tantas outras mudanças sociais, uma diferente dinâmica familiar. Antes, muitas famílias brasileiras contavam com ajuda para fazer as refeições rotineiras no lar, fosse de pessoas que trabalhassem na própria casa ou de parentes e vizinhos que partilhavam suas refeições, ou fosse, até mesmo, uma breve saída para um restaurante. Mas isso, como muitas outras coisas,  mudou, repentinamente, com a chegada da pandemia e a necessidade do isolamento social. E aí, não houve saída se não todo mundo entrar na cozinha e colaborar. Pais, mães e, claro, crianças, tiveram que aprender – ou aprimorar –  os talentos culinários para dar conta das refeições diárias do pessoal – sem contar os lanchinhos. 

Segundo a nutricionista Patrícia França,  especialista em alimentação saudável para famílias, o envolvimento das crianças na produção de comidas da casa é essencial e já devia acontecer mesmo antes da quarentena. Quando a criança aprende a cozinhar ela não aprende só a cozinhar. Há um conjunto de infinitas habilidades na atividade,  não apenas culinárias, mas também ligadas ao desenvolvimento da criança.” Mas, alerta, isso deve ser natural, leve, prazeroso. “A minha dica é não usar esse momento de preparo da alimentação com a intenção de “educar” ou dar lição de moral. A criança não pode ver aquilo como uma tarefa,  uma atividade escolar. Os pais precisam fazer isso ser de uma forma espontânea, mais autêntica. A criança gosta daquilo que é verdadeiro.”

 

Mãos à obra

Fora do Brasil há cerca de 6 anos, a fisioterapeuta Marta Pinheiro sempre colocou os filhos para participar da execução do menu da casa, já que a ajuda doméstica, no exterior, é extremamente custosa e incomum. “Acho importante eles se envolverem no processo de fazer a comida da casa – para dar valor ao alimento e para terem mais independência. É uma habilidade para a vida. Não espero que eles façam uma ceia de Natal, mas o básico para terem confiança e se virarem sozinhos.” 

Marta coloca os filhos para cozinhar com ela pelo menos uma vez por semana. E diz que a confiança deles com as panelas tem aumentado. “Mas até a receita não dar certo é importante. Vemos o erro, adaptamos e seguimos em frente.  Hoje, meu mais velho – com 15 anos – já vai para o fogão e prepara seus pratos quando quer.  Sinto que a mais nova – de 10 anos – começou a ter mais curiosidade pelos ingredientes e até passou a comer melhor. Fizemos ravióli, certa vez, e ela amou em ver o que podia criar na cozinha. E compartilhar o que fez é mais legal ainda.”

A nutricionista Cátia Medeiros, especialista em Fitoterapia e Nutrição Esportiva, assim como atendimento Gestacional e Pediatria concorda.  Inclua a criança na rotina de preparo, permitindo o manuseio, fazendo deste momento algo prazeroso, um momento divertido, onde possa sentir cheiro, textura, ver cores diferentes.” Segundo ela, é importante a criança se sentir importante no preparo, higienizando o alimento ou picando, amassando, misturando. “E ressalte sobre o que de bom aquele alimento poderá oferecer para ele, como ficar forte, inteligente, crescer… sem termos técnicos, com linguagem simples.”

 

Atividades por idade

Mas, e com crianças menores e menos habilidosas, por onde começar? Escolhendo frutas e verduras no mercado pode ser um início.  “Crianças são táteis e cheiram, sentem, pegam. Lavar os alimentos, guardar as compras, rasgar alface, colocar a mesa – tudo isso vale para tornar a relação com o alimento mais natural e próxima” sugere Patrícia. “A cozinha é uma lugar de transformação dos alimentos, de quase mágica. Use disso para encantar e envolver seus filhos.”

Para ela, mãe de duas meninas, também é essencial que pais e mães dêem mais autonomia aos filhos no processo de preparo – desde confiando neles para usar facas e tesouras, na idade apropriada,  até na escolha do próprio alimento. Isto é, dentro daquilo que os pais selecionam como alimentos da casa, a criança pode sim exercer sua autonomia de escolha e ela decidir o que comer, fazer o próprio prato e não só obedecerem e comerem aquilo que a gente determinou. Quanto mais autonomia você dá, mais a criança vai se sentir importante e mais ela vai ser sua aliada na hora que você for educar ou ensinar alguma coisa alimentar para ela.” 

Confira as dicas sobre como envolver os pequenos na cozinha, de acordo com a faixa etária. 

 


Confira a nossa coluna de Nutrição, por Letícia Tischenberg


 

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