Conversas sobre raça, privilégios e brutalidade policial podem ser difíceis, mas são necessárias para a criação de crianças antirracistas, conscientes e engajadas.

Os protestos pela morte do norte-americano George Floyd dominaram as ruas de cidades de todo o mundo nas últimas semanas. A brutalidade da tragédia  levantou uma série de discussões sobre questões raciais e sociais. E sabemos que ter essas conversas sobre racismo, preconceito, e direitos humanos não são fáceis – e muitas vezes levam a reações acaloradas e até mesmo violentas. Como, então, lidar de forma tranquila com esses temas – tão dolorosos e sensíveis – com as crianças?

Segundo Howard Stevenson, professor de Educação Urbana da  University of Pennsylvania em artigo publicado no Huffpost, “quanto  antes tivermos essas conversas, melhor”. Isso porque, ao contrário do que alguns pais e educadores possam acreditar, as crianças estão muitos mais atentas do que imaginamos – e ficar sem explicação pode confundir ainda mais os fatos que, por si só, já são difíceis de serem entendidos. 

Para se ter uma ideia, de acordo com a Sociedade Americana de Pediatria, o cérebro de um bebê pode identificar diferenças raciais já aos 6 meses de idades. Por isso, a necessidade do diálogo cedo e aberto são importantes quando tivermos que sentar e explicar os fatos. 

Segundo Harold Koplewicz,  psicólogo do Child Mind Institute – uma associação que cuida da saúde mental de crianças e adolescentes nos Estados Unidos-,  a principal dica para se ter uma conversa produtiva com os filhos é nos engajar na discussão, confortar e dar segurança aos nossos jovens, e oferecer a eles modos produtivos de canalizar a raiva e frustração deles, além de sobretudo, fazer com que se sintam ouvidos.” Mas, por onde começar? Segundo Dr. Koplewicz  essas são algumas maneiras de nortear a conversa:

– Não evite o assunto – por mais duro que seja falar de racismo e violência, o assunto é extremamente necessário. Se não falarmos, as crianças podem tirar conclusões precipitadas e – perigosas –  sobre o tema.

– Tenha um plano – faça um roteiro mental mínimo do que você vai falar, para que não parecer perdido ou contraditório.

Tente manter-se calmo e factual – é aceitável ter reações emotivas, mas tente não deixar que elas tornem a conversa tumultuada e estressante. 

– Estimule as perguntas – deixe espaço para o questionamento e, caso seja surpreendido com questões que não sabe responder, diga que vocês irão pesquisar as respostas juntos para, assim, chegarem a uma conclusão. 

– Valide os sentimentos das crianças – faça seu melhor para reconhecer os medos, raiva, ou sentimentos negativos que possam surgir na conversa.  

A advogada Renata Milo, mãe de Giovana, Pedro e Lucas, diz que explicou as notícias de George Floyd a seus filhos e que Giovana, a mais velha (9), chorou. “Acho importante acolher e dizer que sim, é muito triste e até revoltante – sem julgá-la por isso. E disse que essa insatisfação dela deveria ser usada para refletir sobre o assunto, se informar e pensar em alternativas”

– Mantenha o diálogo aberto e a conversa constante  – não adianta falar no assunto uma vez e depois nunca mais tocar nele. A conversa tem que ser constante, fazer parte do dia a dia da família e não um tabu.  

“Sempre mantive o diálogo natural, aberto, ressaltando que não importa como você é, mas quem você é, seu caráter, suas ações” afirma Janaína,* mãe branca de uma menina negra, e que sempre traz as conversas para a família de forma natural e calma. “Estimulo, sobretudo, para que ela me pergunte o que quiser e para que ela enxergue todo mundo como igual, independemente da cor da pele, do cabelo, da nacionalidade. Não quero incutir na cabeça dela de que ela é diferente e irá sofrer preconceito por isso.”

 

*Nome fictício, para preservar a identidade da entrevistada

 


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