Um assunto dolorido e delicado, mas inevitável. Falar sobre a morte com as crianças não é tarefa fácil. Mas seja a perda de um familiar, um amiguinho ou até mesmo de um animal de estimação, uma hora os baixinhos acabam passando por essa situação.  E quando isso acontece, os questionamentos também aparecem. Se de um lado os pequenos começam a perguntar sobre o ocorrido, do outro lado tem os adultos, inseguros e repletos de dúvidas. Afinal, como falar sobre a morte com as crianças?

De acordo com a psicanalista Cristina Marcondes, a morte de alguém muito próximo implica um processo de luto e reorganização da vida. E isso também acontece com as crianças. “O mundo que ela conheceu com esse adulto que se foi, se transforma com a separação abrupta dele em função da morte. E ela precisa de ajuda para lidar com sentimentos, como medo de perder outras pessoas importantes, sensação de desamparo, tristeza”, explica.

A profissional também ressalta que a morte deve ser sempre explicada para as crianças pelos adultos nos quais elas confiam, aqueles que são próximos e encarregados de cuidar e proteger. E mesmo que a morte seja de um pet, como um peixinho, não pense em mentir ou omitir. Os pequenos percebem a mudança no clima da casa e se a criança ouvir alguma conversa ou acabar descobrindo a “mentira”, há uma quebra na confiança. Lembre-se que essa experiência de morte é marcante e seu filho ou filha pode levar por toda a vida.

 

Mas como começar o assunto?

A recomendação da psicanalista Cristina Marcondes é falar sobre morte com a crianças sem antecipar as respostas. Ou seja, apenas responda quando as questões sobre esse assunto começarem a aparecer. Outra dica é considerar a idade da criança. 

Segundo Cristina, até os seis anos a experiência da morte se configura de maneira diferentes e estão relacionadas com o contexto familiar de cada criança, como por exemplo se ela já perdeu pai ou mãe, irmãos ou avós. “Quando se perde pai ou mãe precocemente, esse evento precisa ser tratado de forma adequada. Os adultos mais próximos precisam falar com a criança de forma que ela entenda que a morte implica numa separação definitiva, ao mesmo tempo que garanta a criança possibilidades de sentir-se segura e com esperança”, explica.

A psicanalista ainda ressalta que o uso das metáforas é interessante e pode ajudar o baixinho a lidar com a angústia da separação provocada pela morte. Entretanto, deixe claro que a morte não foi escolha daquela pessoa querida. Em outras palavras, explique que não foi decidido por aquele familiar amado “virar estrelinha” ou “ir morar com o papai do céu”. Isso evita que a criança crie fantasias de abandono. “Ela pode imaginar que a mãe, o pai ou avós preferiram ir morar com o papai do céu a ficarem com ela. Então, diga que esse dia (de virar estrelinha ou morar com o papai do céu) chega para todos depois que crescemos. Viramos adultos e vivemos bastante por aqui, mas que não sabemos exatamente quando será”, sugere. 

Entretanto, crianças acima de 7 anos já podem questionar as metáforas. Por isso, o adulto deve responder, considerando sempre, como as questões em torno da morte são colocadas pelas crianças. 

 

Falar sobre a morte durante a pandemia

A pandemia que atinge o Brasil desde o mês de março já deixou mais de 50 mil mortos. De um dia para o outro, a palavra ‘morte’ passou a fazer parte das conversas rotineiras das famílias. E como falar sobre esse assunto, cada vez mais tão corriqueiro durante a pandemia? Para a psicanalista Cristina Marcondes, há um só caminho: falando a verdade.

“Explique que existem doenças que provocam a morte das pessoas, como esse vírus. Mas que os adultos da sua família estão fazendo tudo o que é possível para se protegerem e protegê-la”, orienta. Porém, essa explicação só é válida caso sua família realmente tenha assumido a necessidade de isolamento social. 

Pode ser uma oportunidade também para falar sobre os sentimentos. Ressalte que quando alguém que amamos morre, ou vira estrelinha ou vai morar com o papai do céu, todos ficamos muito tristes e choramos porque sentiremos saudades. 

Caso a morte aconteça na sua família, mostre que você estará sempre à disposição para conversar sobre o assunto. “Deixe claro para a criança que sempre que ela sentir saudade, pode falar sobre isso e sobre o que está sentindo. Isso ajuda a lidar com a sensação de desamparo, com o medo de perder outros adultos importantes, enfim, com o luto pelo qual as crianças também passam quando perdem alguém que amam”, explica.


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Companhia de teatro usa a arte para falar sobre a morte

A peça “Casulo”, de autoria da Cia Arte-Móvel de Teatro, que estreou em 2019, usou a arte para falar de forma primorosa sobre os ciclos da vida. O espetáculo usa toda a transformação da lagarta que vira uma borboleta para poder conversar sobre a morte com o público infantil.  

“O Casulo é uma analogia, trazendo o círculo da vida com borboleta, provocando a reflexão de que tudo se transforma, que as coisas não morrem. Pegamos o estágio da lagarta, como esse processo de estar caminhando na vida, quando ela passa para o estágio do casulo, onde colocamos a questão do fim, da dor, da perda, no qual a gente se enclausura, Mas quando passa para o estágio da borboleta, fazemos analogia para o entendimento de que quando eu entendo que a morte é um ciclo e é necessária, eu me liberto, e isso é um processo bonito”, explica o ator, diretor e arte educador Otávio Delaneza.

Por saber que falar de morte com as crianças ainda é um tabu para a maioria dos adultos, a preocupação de Delaneza era proporcionar uma peça que levasse às crianças a refletirem sobre o assunto. “A gente acredita que toda obra de arte precisa fazer refletir. Entretenimento as crianças já têm em casa, com televisão e brincadeiras. O teatro, a arte, também precisam ter entretenimento, mas é necessário levar as crianças para refletir um pouquinho, para começar a entender a vida. E a gente só é capaz de entender a morte quando entende a vida. Entendemos que tudo isso faz um ciclo”, pontua.

No início do projeto, o diretor conta que o maior desafio foi conseguir colocar essa temática no universo infantil. Para isso, contaram com a ajuda de um dramaturgo português e da psicanalista Cristina Marcondes. “A morte é filosófica. Cada religião aborda de um jeito. Mas nós queríamos uma abordagem universal, brincando com o movimento de tudo começa, tudo tem seu meio e tudo finaliza”, enfatiza.

Já na estreia, Delaneza se surpreendeu com o resultado, quando notou adultos emocionados e percebeu que as crianças tinham entendido a mensagem. “É interessante observar, também, que às vezes a criança não tem resposta na hora. Ela assiste e depois surgem as perguntas. É nesse momento em que a criança dá margem para o adulto dialogar com ela. O espetáculo levanta os questionamentos da criança. Então, o adulto deve abrir o tema para discussão”, finaliza.


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