Abuso sexual infantil: um assunto é delicado, incômodo, mas inevitável – e que precisa ser tocado. E nada como informação para pais e familiares saberem lidar com tantas perguntas e medos típicos de um tema tão preocupante, tanto para adultos quanto crianças.

O recente caso do estupro – e gravidez – de uma menina de apenas 10 anos, em São Mateus (ES), pelo seu tio, levantou uma importante discussão sobre o abuso sexual: suas causas, seus impactos e, sobretudo, como prevenir que casos semelhantes aconteçam com nossos filhos ou alunos. 

De acordo com o Ministério da Saúde, em 2018, 13.409 crimes sexuais foram notificados no Brasil contra crianças de 0 a 9 anos. Estima-se, ainda, que o número real seja muito maior que esse, já que muitas famílias, por medo ou vergonha, acabam não relatando o crime à polícia. Entre as vítimas da violência nessa faixa etária, 76,4% eram meninas e 23,6% meninos e cerca de 70% dos casos aconteceram dentro de casa.  Em apenas 6% dos abusos, o autor não era conhecido da família. 

À luz desse importante tema, o Family Center entrevistou Carla Faiman, doutora em Psicologia Clínica e autora do livro “Abuso sexual em família: a violência do incesto à luz da psicanálise” sobre alguns pontos essenciais dentro desse assunto, que afeta não apenas o corpo mas sobretudo a mente da vítima. “Embora o abuso sexual implique em um uso erótico do corpo da criança, ele é principalmente um abuso psíquico, por se tratar de uma relação em que alguém se serve do outro, desprezando ou atacando a sua subjetividade” afirma Carla. Para ela, ainda, é importante que a criança tenha um adulto para quem possa recorrer, em quem ela confia e sente que sua intimidade pode ser compartilhada e cuidada. 

Os impactos do abuso sexual na vida da vítima são outra grande preocupação de pais e mães. Segundo a autora, eles variam muito, de acordo com inúmeros fatores: idade e maturidade da criança, tipo de abuso, relação com o abusador, etc. Mas, segundo Carla, o episódio nunca passa sem deixar sequelas no indivíduo: “O abuso sexual infantil sempre deixa marcas emocionais. Mas o seu impacto na vida adulta pode ser muito variável. Entre as possíveis consequências, podemos citar: confusão entre realidade e fantasia, distúrbios de personalidade, perturbação na capacidade de envolvimento afetivo, perturbações sexuais, depressões etc.” 

Para saber como orientar e proteger uma criança, identificar um abuso, saber como agir caso seja procurado por menor abusado e como ajudá-lo, acompanhe, a seguir, a entrevista com Carla Faiman, na íntegra.

– Como pais, mães e cuidadores podem proteger a criança de sofrer abusos sexuais, em casa, ou pela família?

A criança mais protegida é aquela que tem a experiência de ser tratada com respeito e consideração, que se sente digna de amor. É aquela que sente que existe alguém próximo que realmente se importa com ela e que faz com que ela sinta que o respeito a ela é algo devido e correto. Além disso, ela deve sentir que tem alguém a quem ela pode recorrer, em quem ela confia e sente que sua intimidade pode ser compartilhada e cuidada. Isso é muito mais eficiente do que dar ensinamentos a respeito de partes do corpo. Até porque as formas de abuso podem ser muito variadas. Uma dica prática é ensinar que provavelmente existe algo de errado quando alguém pede à criança para manter segredo a respeito de alguma ação realizada com ela.

 

 – O que devemos ensinar aos nossos filhos para que saibam reagir (ou relatar) um abuso aos seus corpos?

 Quanto a relatar o abuso, devemos ajudar os adultos a escutar as crianças. O que não é fácil nem óbvio. Pode ser difícil estar aberto para entender o que a criança tenta comunicar, especialmente quando se trata de assuntos difíceis. Pode-se errar, pecar pela falta – não percebendo, não dando atenção –  ou pelo excesso, misturando aquilo que a criança comunica com o que é despertado na nossa imaginação, criando uma situação confusa com interpretações equivocadas.

Para relatar um abuso, a criança deve sentir que a pessoa de confiança dela é forte o suficiente para aguentar a “tormenta” sem enlouquecer e para tomar providências devidas no sentido de protegê-la. Lembrando que quando o abuso ocorre dentro da família, o relato da criança carrega um peso enorme, pois denuncia a perturbação da dinâmica familiar, algo que ninguém quer ver. Geralmente os abusadores se servem desse aspecto para manter a criança em silêncio. A própria denúncia deflagra uma crise e a criança teme ser culpabilizada pela ruína da família, o que às vezes ocorre e é muito grave.

 

– As crianças são condicionadas a obedecer aos adultos. Como ensiná-las a dizer NÃO e enfrentá-los em situações que as fere ou as invade?

 Crianças mais seguras de si e de seu respaldo familiar tendem a enfrentar com mais assertividade situações abusivas. No contexto de abuso sexual infantil, o abusador é uma pessoa envergonhada, com medo de ser descoberta. Devemos ensinar às crianças que se algum adulto – ou criança mais forte – quiser fazer com ela algo que tenha que ser escondido, secreto, deve estar errado. E se está errado, ela não deve aceitar. Não deve ficar quieta. Mais do que obedecer ou não os adultos, a questão é aprender a reconhecer o que é certo e o que é errado. 

 

 – Quais são alguns sinais de que uma criança que está sofrendo abuso sexual?

 As alterações são as mesmas que podem aparecer em decorrência de outros problemas que a criança possa enfrentar, o que dificulta o reconhecimento do abuso. Ou seja, não são exclusivas de abuso sexual, são indicações de que algo não está bem e deve ser observado. Podem ocorrer mudanças de comportamento, mudanças no padrão de sono ou de alimentação, dificuldades escolares, dificuldade de concentração, alteração do humor, maior suscetibilidade emocional, novos medos, regressões a padrões de comportamento anteriores, medo de ficar sozinha, etc.

 

– Qual o primeiro passo a tomar quando percebemos que uma criança está sendo abusada?

O primeiro passo é proteger a criança – isto é: cortar qualquer possibilidade de o abuso voltar a ocorrer e de que ela sofra qualquer represália. A denúncia à Justiça é importante e devem ser tomados os cuidados de saúde, inclusive de saúde mental. No caso de abuso incestuoso, a família toda necessitará de cuidados em saúde mental.

 

– Qual o impacto, na vida de uma criança (e futuro adulto), de um abuso sexual infantil? 

Vai depender de muitos e diversos fatores, como o tipo de relação entre abusador e vítima, a idade (ou da maturidade emocional) da vítima, as circunstâncias do abuso, do tipo de abuso (no que consistiu), etc. Um fator da maior importância é o que se passa após a comunicação do abuso, ou da tentativa de comunicação. Se, ao comunicá-lo, a criança é levada a sério, recebe cuidado e passa a ser protegida, interrompendo-se a exposição dela a novos episódios, o prognóstico é bem melhor. Caso o adulto, após a comunicação da criança, não a proteja, ou, pior ainda, a responsabilize pela ocorrência, as consequências serão muito mais sérias, pois ocorre a perda da esperança, o que é gravíssimo. Isso reforça também a sensação de ser alguém que não tem valor, que não merece cuidados. 

O mais grave ocorre quando o adulto não acredita na comunicação, podendo fazer com que a própria criança questione suas percepções e seu entendimento a respeito do que se passa em uma interação abusiva. E isso pode ser extremamente perturbador para todo o desenvolvimento. 

Por outro lado, se os adultos se desesperam e se assustam muito, a criança sofrerá também os efeitos disso, incrementando a insegurança e amplificando o efeito traumático da experiência.


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