Educar dá trabalho. Uma frase clichê e que todo mundo já ouviu falar e que pode fazer todo sentido quando, por exemplo, quando você ver seu pequeno ou pequena se jogar no chão da loja mais movimentada do shopping. Ou quando seu filho bater os pés e gritar com você porque gostaria de tomar água no copo azul e não no vermelho que você ofereceu. E, provavelmente, é a partir desse cenário caótico e desafiador que você não sabe se chora, se fica brava ou se acalenta aquele pequeno ser, que você começará a refletir sobre qual é a melhor forma de educar seus filhos.

Neste momento, você terá três caminhos: a permissividade, o autoritarismo ou a chamada “disciplina positiva”. Quem explica a diferença entre esses conceitos é o educador parental Thiago Queiroz, criador do site Paizinho, Vírgula!

“A diferença entre disciplina positiva, permissividade e autoritarismo se baseia na mensagem que você passa para a criança. Na permissividade é como se ela pudesse fazer tudo que ela quisesse. Ela é livre, pode fazer o que quiser, do jeito que quiser. As escolhas são ilimitadas. No outro extremo, no autoritarismo, seria onde a criança não escolhe, faz o que a gente manda, não tem escolha nenhuma. Na disciplina positiva, a mensagem que se passa é: vamos escolher dentro dos limites que sejam possíveis para todo mundo. A gente tem uma liberdade controlada ali”, afirma.

Em outras palavras, a disciplina positiva é uma maneira equilibrada de ser firme e gentil ao mesmo tempo. Mas, você deve estar se perguntando, é possível agir dessas duas formas simultaneamente? “A gente consegue ser gentil e firme ao mesmo tempo com a criança quando a gente tenta levar em consideração as necessidades dela e não só as nossas, ou seja, ouvir o que ela está precisando, o que ela está querendo, o que ela está pedindo e equilibrar isso junto com as necessidades suas como pai, como mãe, como cuidador e do contexto da situação que a gente se envolve. É como se a gente estivesse pensando em como equilibrar a balança entre, não só as necessidades da criança, mas do resto do contexto que ela está inserida”, ressalta.

Porém, apesar de existirem mais de 50 ferramentas na disciplina positiva que ajudam os pais a terem um relacionamento de respeito e de harmonia com os filhos, isso não significa que será fácil aplicá-la na prática e nem que ela promoverá um milagre no comportamento da criança do dia para noite. Sem dúvida, seu baixinho continuará a te desafiar e terá um comportamento inadequado em alguma situação, pois faz parte do desenvolvimento e evolução dele enquanto sujeito. A diferença é como você escolherá passar por isso.

 

Entenda os conceitos e os objetivos da disciplina positiva

A educadora parental Thais Miniaci Basile, que administra o perfil no Instagram “Educação Para a Paz”, lembra que o termo “disciplina positiva” surgiu a partir de um programa de educação idealizado pela doutora Jane Nelsen, baseado no trabalho de Alfred Adler e Rudolf Dreikurs. Nele, não há punições nem recompensas para educar as crianças.  

O objetivo, segundo a profissional, é o de fomentar o senso de aceitação e de importância nas crianças, além de desenvolver habilidades socioemocionais, como resolução de conflitos, resiliência, colaboração e responsabilidade.

Tudo isso por meio da conexão com os filhos e da empatia. “A partir dessa visão, a primeira mudança é a reeducação de nós, os adultos. Tem uma frase poderosa de Dreikurs que diz: ‘Assim como as crianças precisam de treinamento, os pais também precisam ser treinados. O treinamento consiste em aprender novas respostas às provocações das crianças, e que pode levar a novas atitudes e abrir novos caminhos onde florescem relacionamentos harmoniosos’”, cita.

Um dos conceitos dessa disciplina é que os erros não são punidos. Pelo contrário, são ótimas oportunidades de aprendizagem e são utilizados como matéria-prima para a busca de soluções de problemas. Ou seja, nesse conceito, os erros jamais serão justificativas para punição dos culpados. “Isso deixa pais mais livres para exercer sua autoridade com liberdade e as crianças menos pressionadas por perfeição e expectativas irreais, e mais conscientes e pertencentes”, afirma Thais.

 

Desafios

Para a educadora parental, uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos pais que resolvem seguir esse modelo de educação é mudar o estilo tradicional de criar os filhos, em que grande parte dos responsáveis pelas crianças acredita que só é possível conseguir o respeito dos baixinhos por meio do medo. De acordo com Thais, no modelo autoritário, acredita-se que firmeza deva ser expressada com agressividade e que gritos e castigos são as únicas formas de educar.

“Ainda que os neurocientistas tenham provado que quando usamos de gritos, punições físicas e castigos o cérebro se fecha ao aprendizado, essas são crenças muito arraigadas na nossa sociedade ainda. Por isso, as pessoas relatam que recebem críticas quando começam a mudar sua forma de educar, porque as pessoas tendem a pensar que educação com respeito é uma educação permissiva, o que não é verdade. O maior benefício é a conexão e a harmonia que reina nos lares e nas salas de aula que praticam esse tipo de disciplina. As crianças ainda dão trabalho, os desafios não deixam de acontecer, mas a maneira com que se lida com eles é que determina se nos sentiremos mais ou menos satisfeitos, como pais e educadores”, enfatiza.


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Como colocar em prática a firmeza e a gentileza?

Agora, você já sabe que a disciplina positiva é uma forma gentil e firme de criar os filhos. Mas esse é apenas um dos pilares dessa metodologia. “Ela ajuda as crianças a desenvolverem um senso de aceitação e importância; é efetiva a longo prazo; e ensina habilidades de vida e sociais valiosas para a formação de um bom caráter, como por exemplo, respeito, preocupação com os outros, resolução de problemas, responsabilidade, empatia e cooperação”, lista a terapeuta ocupacional e doutoranda em saúde da criança Mariana Lacerda Gontijo, que é educadora parental em disciplina positiva.

Mas, você deve estar se perguntando, como colocar tudo isso em prática? Como proporcionar isso para meus filhos no dia a dia? Para Mariana, uma maneira de colocar a disciplina positiva em uso é, primeiramente, buscar informação e estudar sobre a teoria para só depois, levar o conhecimento adquirido para a vida prática.

Entre as mais de 50 ferramentas que podem ser utilizadas para que o relacionamento com a criança se torne mais harmonioso, a profissional destaca três dicas:

1- A primeira é optar por fazer perguntas curiosas.

“Algo fantástico acontece quando permitimos que as crianças sejam ativas no processo de tomada de decisões sobre como resolver as situações. Uma vez que abrimos esse espaço, elas nos mostram como são capazes de pensar por si mesmas e chegar a várias conclusões sozinhas. O foco aqui é nas soluções e não nas consequências. Isso acontece com fluidez quando nós adultos damos um passo para trás e paramos de falar sem parar, apenas nos colocamos diante da criança fazendo perguntas que estimulam sua criatividade”, explica.

Os pais podem fazer isso utilizando as seguintes perguntas: o que aconteceu?;

o que está errado?;

como você se sente sobre isso?;

o que você está aprendendo com essa situação?;

você tem alguma ideia para resolver este problema?

2- Outra orientação da profissional é para focar nas soluções.

“A disciplina tradicional foca em ensinar às crianças o que não fazer ou o que fazer porque alguém disse que é assim que deve ser feito. Já a disciplina positiva tem como foco ensinar às crianças o que fazer convidando-as a refletir sobre a situação, usando respeito e disposição para achar uma solução. Quando algo faz sentido para a criança ela passa a fazer aquilo, sentindo-se participante ativa e responsável. As crianças são muito criativas, por isso podemos nos surpreender com suas respostas quando perguntamos a elas: ‘como você acha que podemos resolver isso?’ Lembre-se de não exigir perfeição na solução, o mais importante é o aprendizado”, recomenda.

3- Uma das ferramentas também utilizadas é dar um “tempo positivo” quando a situação está um pouco caótica ou fora do controle.

“Aqui não estamos dizendo de castigo ou cantinho do pensamento ou de algo para fazer a criança se sentir pior. Estamos falando de uma estratégia respeitosa, que pode ajudar a criança e o adulto a buscarem equilíbrio e autocontrole, e a se sentirem melhor. Experimente criar um ‘cantinho da paz’ ou o ‘lugar feliz’, um espaço agradável e de conexão. Experimente ir você primeiro para este lugar para se conectar com você mesmo e com sua criança e aproveitar para ensinar autocontrole para ela. Experimente envolver a criança na criação deste espaço como algo positivo. Vale combinar com a criança que pode ser legal dar um tempo positivo e usar esse espaço em situações desafiadoras. Depois de se sentirem melhor, todos estarão mais dispostos a trabalhar em uma solução juntos”, ressalta.

Por que o cantinho do pensamento não é indicado na disciplina positiva?

Como você já deve ter notado, o cantinho do pensamento não é algo indicado aos adeptos da disciplina positiva. Segundo Thiago Queiroz, criador do site Paizinho, Vírgula!, o argumento é que esse não é um mecanismo eficaz à longo prazo. “A gente pode considerar que o ‘cantinho do pensamento’ seja eficiente a curto prazo, no sentido que você consegue interromper o comportamento que você deseja parar naquele momento. Por exemplo, se a criança está puxando o rabo do gato, você bota de castigo, então, você conseguiu efetivamente interromper aquela puxada de rabo de gato. Mas já se provou, e quem tentou usar isso com as crianças e migrou para a disciplina positiva sempre relata que a longo prazo não funciona”, afirma.

Queiroz acredita que, ao deixar a criança nesse tipo de punição, a mensagem transmitida é de que ela só é aceita para estar por perto caso atenda as expectativas dos pais. Isso, afastaria a criança ao invés de trazer para perto.

Como impor limites sem usar a palavra “não”?

Já parou para pensar em quantas vezes você usa a palavra “não” ao longo do dia com seus filhos? Se você nunca reparou, vale a pena fazer a observação e mudar esse hábito. Ao invés de utilizar essa negação com tanta frequência, como é comum na educação tradicional, a disciplina positiva sugere colocar limites e conduzir as crianças de uma forma que não se crie barreiras.

“Às vezes, quando colocamos esses limites só através da palavra ‘não’, as crianças ficam limitadas, elas ficam sem saber o que elas podem fazer, ficam sem opções. Eu gosto muito de usar uma metáfora que diz o seguinte: nós adultos somos como as margens de um rio. As margens nunca são rígidas a ponto de criar barreiras, e também não são flexíveis demais, elas mantêm o rio em curso. Se a gente usa ‘não’ para tudo, a gente acaba criando essa barreira. A gente pode usar a palavra não, mas sempre com o cuidado de também deixar claro para a criança o que ela pode fazer, quais são as possibilidades que ela tem fora o não, e de também abrir espaço para criarmos soluções conjuntas que sejam respeitosas para a situação”, recomenda a educadora parental Mariana Lacerda Gontijo.

Quais resultados podem ser esperados ao se aplicar a disciplina positiva?

Apesar de ter surgido há mais de 30 anos, há cerca de 10 anos é que a disciplina positiva tem ganhado mais destaque. Hoje, já é muito comum encontrar cada vez mais famílias que são adeptas aos conceitos de educar com firmeza e gentileza. Nesse contexto, vale o questionamento: se há mais crianças sendo tratadas com dignidade e respeito, com acesso às ferramentas emocionais para que, ainda pequenas, consigam lidar com os sentimentos, como elas serão quando adultas?

“O benefício é que teremos, a longo prazo, adultos que sejam emocionalmente mais saudáveis do que aqueles que são sempre ensinados a colocar para dentro, para  debaixo do tapete toda raiva e toda frustração que sentem, porque eles vão ser punidos se demonstrarem qualquer coisa que não seja o socialmente aceitável. Então, o que a gente busca é criar adultos que vão ser mais capazes de lidar com raivas, frustrações, inclusive vão saber melhor o que estão sentindo do que nós, que fomos criados do jeito tradicional, seja autoritário ou permissivo. Nossos filhos estarão com meio caminho andando, porque estarão praticando desde o primeiro ano de vida a reconhecer os sentimentos, a saber respirar, acolher os sentimentos negativos e ser acolhido”, destaca o educador parental Thiago Queiroz, criador do site Paizinho, Vírgula!.

Outro benefício é que, além de buscar formar crianças emocionalmente mais preparadas, os pais que atualmente estudam e praticam a disciplina positiva, já passam a enxergar, eles mesmos, o mundo e as pessoas de forma mais empática. “Ao exercitar a empatia pelos nossos filhos, não é impossível você também não ser transformado. Se você começar a olhar para suas amizades, para sua relação com seu parceiro ou com sua parceira, e ver como isso é revolucionário. O olhar que eu tenho hoje para a Anne, minha esposa, é muito mais empático e respeitoso. É impossível que não mude seu olhar sobre as coisas da vida”, diz Thiago Queiroz.


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