Basta ouvir uma combinação de sons e ritmos para começar a brincadeira. Enquanto algumas crianças já começam a bater palmas assim que uma música começa a tocar, outras já vão logo dançando. Ainda há aquelas que arriscam acompanhar a melodia. Não é à toa que o músico Ale Carmani, que também é tocador, cantador e contador, afirma que a música é uma linguagem bastante expressiva na infância, sendo em determinados casos, até mais eficiente que a linguagem falada.

“A própria fala é carregada de melodia que serve de referência para os pequenos na interpretação ou tradução do que falamos com eles. Individualmente, a criança tem na voz toda sua identidade social e emocional. Expressar-se através do corpo é intrínseco e instintivo”, ressalta.

De acordo com Carmani, estimular e valorizar a música na infância favorece o bom funcionamento de todos os sistemas rítmicos (cardíaco, sanguíneo e respiratório), apura a capacidade auditiva e vocal, além de treinar e amadurecer as relações socioafetivas.

“Coletivamente, a música integra diversas idades da infância numa mesma atividade, enriquece e fortalece relações de amizade, traz consciência de grupo e sensação de pertencimento”, afirma.

Para a professora Fabiane Prates Peres, que cursa licenciatura em música, os benefícios da musicalidade para os pequenos vão ainda mais além. “Ela desenvolve a inteligência, a responsabilidade, o compartilhar, o respeito com o próximo, a socialização e a desinibição”, completa.

 

Como apresentar a música para as crianças?

Uma sugestão é apresentar diversos instrumentos musicais na educação infantil. Segundo o músico Ale Carmani, cada grupo de instrumentos favorece e treina diversos processos de desenvolvimento da criança, possibilitando inúmeros benefícios os pequenos. “Consciência espacial, lateralidade, coordenação motora, ritmo, melodia e memória muscular são alguns exemplos”. 

Conhecendo os instrumentos musicais, Carmani afirma ainda que as crianças aprendem as propriedades sonoras de materiais diferentes, como da madeira, couro, sementes, bambu, metal e plástico. “Eles também criam intimidade com os instrumentos, espelham o manuseio, aprendem a emprestar, trocar com o amigo ou amiga. Cada momento é carregado de experiências e aprendizados”, explica.

A professora Fabiane Prates Peres também ressalta que, ao entrar em contato com os instrumentos, os baixinhos e baixinhas têm a oportunidade de exploram o formato e timbre. “Assim, cada criança pode fazer sua pesquisa sobre a duração do som de algum instrumento (qual tem som longo e qual tem som curto), também classificar quanto a altura (qual é o instrumento com som grave ou agudo)”, pontua.

Outra possibilidade ainda na educação infantil é produzir instrumentos musicais a partir de materiais recicláveis, como garrafas pets e tampinhas. “Proporcionando esse momento de construção, estaremos incentivando a criatividade, ajudando na classificação dos sons, e estimulando o aluno a observar e pesquisar”, orienta Fabiane.

O músico Carmani também acredita que construir instrumentos é uma atividade importante na musicalização. “Essa brincadeira envolve imaginação, planejamento, paciência e musicalidade. Também fortalece a ideia do reaproveitamento, da redução de lixo e da ressignificância das coisas. Tudo à nossa volta pode ganhar uma utilidade musical”, enfatiza.

Para as crianças, Carmani explica que o ritmo ‘provoca’ o corpo, levando ao movimento.  “Potes, panelas, embalagens, grãos, tocos, talheres… Tudo carrega diversas possibilidades sonoras, e as crianças captam com facilidade as características de um objeto.  Qualquer batuque ritmado vira música!”, completa.

 

Vivência música vai além de decorar a letra

De acordo com a professora Fabiane Prates Peres, cantar faz parte das aulas de musicalização infantil, porém não é o principal foco. “Trabalhamos a musicalidade das crianças através de vivências, como por exemplo: ouvir uma música erudita no momento de um relaxamento; dramatizar uma canção; sonorizar uma história; brincar de roda para trabalhar o ritmo, o pulso”, exemplifica.

Durante as aulas, enquanto cantam, conhecem as canções e os instrumentos, as crianças ainda se divertem com as brincadeiras musicais, que incluem bater os pés no chão, bater palmas e dançar.

O músico Ale Carmani acredita que a vivência musical vai além da letra e seu significado literal. “Há o treino da dicção e o enriquecimento do vocabulário, que auxiliam na progressão da fala. Nesse sentido, é importante frisar que a prática musical não está vinculada à formação de músicos, mas ao treino e melhora da oralidade, ao amadurecimento do corpo sensível e à troca de experiências sociais alegres”, contextualiza.

 


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