Como pais e mães que lidam de perto com o Covid-19 diariamente fazem para dar conta do recado dentro e fora de casa – sem colocar em risco a saúde física e mental de suas próprias famílias

Desde meados de Março, a rotina do mundo todo mudou. Quarentena, isolamento, ensino à distância, máscaras, medo e preocupação. Fala-se muito das medidas para desinfetar as compras, da dificuldades das crianças estarem longe das escolas, dos pais trabalhando de casa – e acumulando as responsabilidades domésticas – e educando os filhos. Mas nada mais desafiador que, além de tudo isso, ainda estar na linha de frente no combate à doença: pais e mães que são profissionais da saúde precisam lidar com tudo isso e ainda ter a preocupação – e extra cuidado – de não trazer o vírus para casa e contaminar sua família.

Para retratar o drama desses profissionais, um artigo do NY Times trouxe, recentemente, um exemplo emblemático – e tocante – de um desses casos. Dr. Adam Hill e Dra. Neena Budhraja, norte-americanos casados e ambos médicos de Emergências de hospitais de Nova York tiveram que, entre um plantão e outro, sentar e decidir sobre quem seria o responsável legal do filho do casal, Nolan, de 1 ano e meio caso o Covid-19 lhes tirasse a vida. Tanto Neena quanto Adam tiveram colegas  infectados pelo vírus e a morte de um deles fez com que a nova-iorquina pensasse em largar o trabalho. “Aí vem certa culpa também. Essa necessidade de ajudar toda essa gente, mas ao mesmo tempo, e se por fazer isso, você está fazendo mal a sua própria família? É difícil.” Para evitar isso, ela chega do hospital e corre do pequeno Nolan, deixa seu saco de roupas na lavanderia após todo um ritual de desinfetar-se antes de sair do hospital em que trabalha. Tudo isso para não contaminar seu filho – “seria devastador”, afirma.  

Uma rotina parecida cumpre a Dra. Patrícia Goldstein, nefrologista e vice diretora clínica do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Patrícia trabalha de manhã no seu consultório e de tarde, vai para o hospital ver seus pacientes – alguns, contaminados pelo novo coronavírus. Mãe de Alexandre e Leonardo, de 3 e 2 anos, respectivamente, ela teve que adaptar sua rotina para não abandonar seus pacientes mas, também, proteger seus filhos. “Tenho 3 mudas de roupas que separei apenas para ir e voltar do hospital, que são simples e fáceis de lavar. Chegando lá, coloco a roupa de proteção por cima –  avental, máscara, óculos, touca e luvas. Quando chego em casa, os meninos nem chegam perto. Já entenderam que não podem encostar em mim até que eu tome banho. Passo álcool gel até na fechadura de casa. Tiro a roupa na área de serviço, coloco na máquina para lavar e vou tomar banho. Só depois me aproximo deles.”

Como se não bastasse todo esse cuidado e preocupação, Patrícia ainda ressalta para outro lado da questão: o de mãe. Trabalhando fora de casa durante todo o dia, ela ainda precisa lidar com a culpa pela falta que faz, nesse momento, na vida de seus filhos. “Sei que muitas mães estão exaustas com o homeschooling. Mas eu, por outro lado, adoraria ter um tempo para poder estar com meus filhos fazendo as atividades da escola, ou apenas dando atenção a eles. Como mãe, me sinto em falta nessa parte. Eu saio de casa, então não me sinto sufocada – mas sei que para eles é pior, ficam fechados no apartamento o dia inteiro sem a mãe. Isso me angustia.” 

Por uma aflição semelhante passa o Dr. Ricardo Perez, endocrinologista do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo. Pai de Raul, de 3 anos, ele e sua esposa Daniela, grávida e também médica, se revezam nas atividades – e cuidados – com o filho e as idas ao hospital. “Atendo casos de Covid-19 e sei que minhas chances de ficar doente são grandes. Faço o máximo possível para protegê-los. Deixo a roupa que fui ao hospital num pacote fora de casa e só chego perto dele depois que tomo banho.”

No entanto, por conta da diminuição de consultas no consultório – que antes ocupava 70% da sua carga horária –  Dr. Ricardo tem tido mais tempo com o filho: “A gente tem ficado muito mais com ele agora do que antes da quarentena. E quando saímos de casa, falamos pra ele que estamos indo cuidar de outras pessoas, que precisam de nós. Acho que isso, de certa forma, vai ficar como ensinamento pro Raul e influenciar os valores futuros dele: a importância de cuidar do outro.”

Mas cuidar dos profissionais de saúde também tem sido algo cada vez mais reforçado por psicólogas e psiquiatras do mundo todo – já que tem se observado um aumento de casos de depressão e ansiedade nesse público, tão impactado com a parte mais triste e tensa da pandemia. “Como psiquiatra, sei que a aparência de superfície calma é uma armadura – abaixo disso, muitos profissionais de saúde não estão dando conta. Estão ansiosos e estão com medo. Não estão dormindo e choram mais que o usual” afirma Jessica Gold, psiquiatra e professora assistente de Psychiatry da Universidade de Washington.  Por isso, algumas universidades, como UNC Chapel Hill e a Universidade da Califórnia, estão disponibilizando psiquiatras como voluntários e chamando a atenção para a necessidade de atendimento aos profissionais de saúde, seja por prevenção (redução de stress, mindfulness, e materiais educacionais), seja por atendimento por telefone no momento da crise, seja por tratamento online e medicação, quando preciso. Dr. Ricardo faz sua parte para não deixar o stress da pandemia invadir sua vida e sua família. “Faço muito esporte para reduzir o stress: 6 vezes por semana, 45 minutos por dia. Faço musculação com um professor pela tela e corro bem cedo, quando  a rua está vazia. Também cozinho, isso me distrai. Por fim, como moro numa casa e tenho quintal,  observo os passarinhos, as plantas , os besouros. Mostro para o Raul, colocamos água pro beija-flor, mamão para as outras espécies. Isso tudo alivia o stress.”

Matéria NY Times

 


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