*Clara já estava desfraldada durante o dia e pedia chupeta apenas para dormir. Mas em junho de 2019, após três meses isolada com seus pais em um pequeno apartamento na cidade de Santa Bárbara d´Oeste (SP), a menina, de então 3 anos, começou a ter escapes de xixi e pedia a chupeta a todo momento. Longe da escolinha, que aderiu ao ensino remoto, e mantendo contato com amiguinhos e familiares apenas pela internet, a mãe de Clara, a administradora *Rosa Silva, de 39 anos, atribui à pandemia a regressão no comportamento da filha.

E Rosa tinha razão. Um recente estudo realizado e divulgado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), indicou que 27% das crianças de 0 a 3 anos voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas durante este cenário pandêmico, segundo a percepção dos pais. A pesquisa ainda ressalta que, apesar de essas mudanças geralmente serem transitórias, é importante os pais observarem os pequenos.

“Não cheguei a buscar ajuda profissional, mas precisei mudar algumas coisas. Estávamos há três meses totalmente trancados dentro de casa e comecei a perceber que já não estava fazendo bem para ela. Então, começamos a fazer alguns passeios com que achávamos seguros, como andar de bicicleta e ir numa pracinha perto de casa”, conta Rosa. Aos poucos, ela percebeu que o comportamento da filha foi estabilizando novamente.

Profissional conta que cresceu a busca por psicólogos infantis

Os consultórios de psicólogos infantis sentiram um aumento na procura, justamente devido à demanda que o isolamento social acabou provocando nas famílias, como é o caso da psicóloga da infância e adolescência Mariane Alvim Brito, que atende Presidente Prudente (SP).

“Estamos vivendo em um momento complicado tanto para adultos, idosos e até crianças. Um novo momento onde nunca imaginávamos que iríamos viver e as crianças sentem como nós, porém só não conseguem expressar o que estão sentindo com palavras, demonstrando assim através de comportamentos”, pontua a psicóloga da infância e adolescência Mariane Alvim Brito.

De acordo com a profissional, a regressão no comportamento é uma forma que a criança utiliza para chamar a atenção de algo, mostrando por meio de ações que precisa de cuidado e atenção. “As crianças estão externalizando o que estão sentindo, onde este momento que estamos vivenciando são momentos de incertezas, medos, inseguranças e sentimentos de lutos e tristezas e, com isso, as crianças regridem. Elas voltam a acessar coisas passadas, que davam conforto e segurança”, explica.

Por isso, é comum os pequenos e as pequenas pedirem novamente a chupeta, o uso das fraldas, dormir na cama dos pais e solicitar novamente a mamadeira. Mariane lembra ainda que mudanças estressantes na família, como a perda de um familiar, vítima do vírus, podem impactar na saúde mental dos baixinhos.

 Como a família pode ajudar na regressão do comportamento da criança?

Apesar de a mudança comportamental das crianças deixar pais e mães aflitos, a psicóloga da infância e adolescência Mariane Alvim Brito ressalta que essa alteração é bastante comum neste momento desafiador que a sociedade está enfrentando.

Para ajudar os pequenos, a primeira dica da psicóloga é para acolher, sem julgar e/ou punir. “Lembre-se de estar mais próximo do seu filho. Muitas famílias estão em casa por conta da pandemia, mas estar no mesmo ambiente não significa proximidade e acolhimento”, pondera.

O diálogo também é fundamental. Pais e mães devem estimular as crianças a falar sobre os sentimentos e, então, ajudá-las a compreenderem melhor o que estão sentindo.   “Os pais precisam conversar sobre o que está acontecendo no mundo e sobre o vírus. Engana-se quem acha que não precisa ter essas conversas com as crianças”, ressalta.

Por fim, Mariane sugere para a família criar um quadro de rotina, de acordo com a faixa etária da criança. “Deixe o quadro exposto no alcance da criança e dialogue com ela sobre a rotina. Quanto mais nova a criança, mais lúdico deve ser esse quadro”, orienta. Manter uma rotina previsível traz segurança e ameniza a ansiedade nas crianças.

*A pedido da fonte, os nomes das personagens foram preservados


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