Algumas crianças estão há mais de um ano distante fisicamente da escola e dos amigos, outras estão sem ver presencialmente os avós e há as que estão sem frequentar os parquinhos infantis. Com maior ou menor intensidade, o fato é que a maioria das crianças está com a vida social mais restrita desde março de 2020, quando teve início a pandemia no Brasil. E o que fica cada vez mais latente com o passar dos meses, é a saudade. Se os adultos sentem falta dos abraços, de estar com as pessoas que amam e de ir aos lugares que tanto apreciam, com os pequenos e pequenas não é diferente. O que acontece é que, nem sempre, as crianças conseguem expressar exatamente o que estão sentindo.

“Em tempos de pandemia, isso tudo está potencializado e, para as crianças que ainda estão no processo de alfabetização das emoções, essa saudade se torna mais intensa e difícil de lidar. Elas sentem falta da escola, dos amigos, de brincar no parquinho, dos avós, dos tios e etc”, pontua a psicóloga clínica Juliana Araújo.

De acordo com a profissional, a saudade é reflexo da ausência de alguém ou de algo e pode ser configurada como resposta a uma determinada emoção, geralmente de alegria e ou tristeza. E a melhor forma de ajudar as crianças a lidarem com a saudade durante a pandemia, é estimulando o diálogo e a auxiliando a expressar as emoções.

Para conseguir auxiliar seu filho e/ou filha, Juliana afirma que é necessário promover um espaço em que a criança possa falar abertamente, livre de julgamentos e de repressão. “Quando a criança trouxer falas relacionada à saudade, experimente trocar frases do tipo: ‘para de falar isso, que besteira’ ou ‘deixa de frescura, vai brincar’; por frases como: ‘me conta mais sobre como você está se sentindo’ ou ‘imagino o quanto você está com saudade, que tal fazer um desenho sobre isso?’”, recomenda.

Ainda segundo a psicóloga, pais, mães e cuidadores devem instigar os baixinhos a aprenderem a lidar com essas emoções, identificando, nomeando e regulando o que sentem. “Para isso, você pode utilizar recursos áudio visuais, desenhos, contação de histórias, escrever ou desenhar cartinhas para os parentes distantes, por exemplo! Você pode pedir que ela sugira alguma coisa que possam realizar juntos, para fazer quando a saudade aparecer. Você pode se surpreender com a capacidade criativa da criança em lidar com sua angústia”, exemplifica.

Qual a importância de acolher a saudade dos filhos?

Segundo a psicóloga clínica Juliana Araújo, acolher os sentimentos das crianças é vital para seu desenvolvimento psicológico e emocional. “O acolhimento é um movimento de proteção e amparo ao outro. Quando os pais se dispõem à escuta, promove para a criança um ambiente de conforto emocional, criando uma ponte de diálogo e expressividade, validando o seu sentir, legitimando o seu sentimento”, explica.

Juliana acredita que, quanto sociedade, estamos habituados a achar que as crianças não precisam falar, assim como não precisam ser escutadas. “Acreditamos que elas não precisam de informações e que elas não sofrem. Porém, elas sofrem e muito, do jeito delas, elas sofrem! E para lidar com esse mix de sentimentos e emoções, ela precisa ser acolhida”, pontua.

Entretanto, a profissional ressalta que acolhimento não significa, necessariamente, fazer todas as vontades da criança, mas incentivá-la a compreender aquilo que tem vontade e o que não gostaria de fazer, para que perceba que as emoções e sensações são geradas a partir desses pontos.

“Não é tarefa fácil acolher, mas é possível e essencial para que a criança desenvolva suas habilidades socioemocionais, que serão basilares para o sucesso na vida adulta. Que lindo seria se todas as crianças pudessem experimentar esse acolhimento primeiro em seu ambiente familiar, não é mesmo?”, indagada.

Apesar de sempre tentar acolher e escutar a filha Mariana, de 8 anos, a professora universitária Débora Ferreira, de 40 anos, conta que essas práticas passaram a ser ainda mais necessárias devido ao novo cenário vivenciado com a pandemia. Longe fisicamente da escola e dos amigos, Débora relata que a menina sente muita falta da vivência escolar.

“Ela sempre gostou de ir para escola, vai desde bebê. Estava acostumada com as professoras e com os colegas e, de repente, tudo passou a ser pelo computador. Detalhe que nunca tínhamos liberado para ela tanto contato assim com as telas. Foi muita mudança para ela”, compartilha.

Em dezembro do ano passado, a escola de Mariana promoveu um evento de encerramento de fim de ano em que as famílias foram convidadas a entrarem no colégio no esquema drive thru. Débora lembra que a filha ficou bastante emotiva nessa ocasião. “Percebi que ela ficou feliz e triste, ao mesmo tempo. Conseguir ver algumas amiguinhas nos outros carros, viu a professora… Mas tudo de longe, né? Quando saímos de lá, ela disse que tinha se sentido viva novamente. Essa frase mexeu muito comigo”, ressalta. Segundo Débora, o diálogo franco, falando sobre a realidade da pandemia, e buscar entender os sentimentos da filha são fundamentais.

Você sabe falar sobre os sentimentos e emoções com seus filhos?

As principais preocupações da maioria dos pais e mães é que os filhos e filhas tenham uma vida confortável, com vestimentas, alimentação adequada, com saúde e acesso a uma boa escola. Entretanto, não propositalmente, muitas vezes o desenvolvimento emocional é negligenciado.

“O desenvolvimento físico é importante e garantido por lei aos pequenos. Todavia, o emocional não deve ser indolente. Dependendo da faixa etária, pode-se usar de ludicidade para explicar sobre essas emoções”, sugere a psicóloga clínica Juliana Araújo.

De acordo com a profissional, diversas situações do dia a dia da família podem ser usadas como exemplos para ensinar os baixinhos a lidarem com os sentimentos e emoções. “Quando você estiver muito irritada e estiver prestes a explodir, pode dizer para sua criança: ‘filho, estou muito irritada com isso no momento, a bomba da raiva quer explodir; mamãe precisa de um tempo para apagar a bomba’. Então, na frente da criança, se possível, respira e conta de um até dez”, orienta.

Depois, Juliana afirma que é recomendado falar com a criança sobre o que você estava sentindo e o que fez para se acalmar. “Sempre gosto de utilizar a analogia da ‘bomba da raiva’. Com certeza, ela entenderá através da ludicidade o que aconteceu e como você foi capaz de gerenciar sua emoção naquele momento”, afirma.

Para a profissional, são inúmeros os benefícios gerados nas crianças que têm famílias que se comprometem com a educação emocional dos filhos. “Vão desde o desenvolvimento intrapessoal e interpessoal, resolução de conflitos, promoção de autoestima, empatia, comunicação e etc. Temos, ainda, o entendimento de estarmos educando filhos emocionalmente saudáveis, ampliando a oportunidade de que eles sejam adultos mais estáveis. Como sempre digo: crianças felizes, sociedade transformada!”, ressalta.

Livros e filmes que podem ajudar a criança a lidar com a saudade

A psicóloga clínica Juliana Araújo preparou uma lista com livros e filmes que podem ajudar pais e mães a falarem com as crianças sobre a saudade. Confira:

– O livro “O monstro das cores”, da autora Anna Llenas, tem uma proposta literária interessante, que ajuda as crianças a identificarem, nomearem e regularem as emoções por meio das cores. No canal do YouTube Fafá Conta, a contadora de histórias tem um vídeo em que retrata essa obra. O link pode ser acessado aqui.

– Outro livro é “Bateu a saudade”, da autora Nana Toledo. A obra tem ilustrações que ajudam a criança a perceber esse sentimento através da história de garotinha que sente muita saudade dos pais, que foram viajar.

– Já os filmes, a dica são os clássicos da Pixar: Divertidamente, a trilogia de Toy Story e Up – altas aventuras.


Confira a coluna:
As emoções no processo de alfabetização


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