Aulas presenciais suspensas, crianças longe dos amigos da escola, famílias isoladas dentro de casa. A pandemia mudou a rotina de praticamente todos os lares e instituições de ensino do país. Para conseguir cumprir com o distanciamento social e seguir os protocolos de saúde e não deixar de fazer as comemorações dos aniversários e festividades marcantes da nossa cultura, tem sido necessário uma boa dose de criatividade. 

Além de ser uma forma de promover entretenimento e diversão para os pequenos e para a família, a consultora e antropóloga do consumo Hilaine Yaccoub afirma que é importante manter esses rituais. 

“O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólico, ou seja, é uma forma de reproduzir valores sociais e culturais, crenças, códigos regionais etc. A importância das famílias em manterem esses rituais está justamente na ideia de permanência da própria família, suas tradições que são expressas em eventos como a festa junina. Acaba se tornando uma memória afetiva do ser e estar no mundo que oferece uma orientação e um pertencimento”, destaca. 

 

Festa Junina da Escola em tempos de pandemia

Diante desse cenário desafiador, muitas escolas estão conseguindo se reinventar e para proporcionar esse momento festivo e já tradicional com os alunos e suas famílias. Uma delas foi a Escola Vira-Virou, localizada no Rio de Janeiro. 

“Kits com materiais diversificados foram organizados e enviados previamente às crianças para que pudessem produzir junto com seus familiares a decoração de suas casas com bandeirinhas e cartazes. Fizemos encontros de Zoom juntando as turmas”, contou a instituição, por meio de uma nota.

Também foram adaptadas, e de forma remota, brincadeiras como dança da cadeira, corrida do ovo/limão na colher e pescaria “O correio do amor foi feito através de mensagens privadas do Chat do zoom”, afirma a escola.

Para a direção da escola, a celebração desses ritos foi mantida, ainda que de maneira diferente, por acreditar no valor de oferecer à comunidade acesso aos conhecimentos oriundos dos povos originários.  “É fundamental para manter a identidade da nossa proposta pedagógica, seja no que se refere aos conteúdos, experiências de aprendizagem ou promoção da saúde mental, oferecendo oportunidades de troca, distração, encontro, diversidade, alegria, subjetividade, etc”, ressalta. 

De acordo com Hilaine, transmitir os valores culturais para as crianças é indispensável, ainda que durante uma pandemia. “As crianças são bastante flexíveis tem termos de regras de diversão. Há uma ludicidade que elas ‘compram’ porque a finalidade é sempre estar junto, ter atenção, se divertir com aqueles que estão por perto como família, parentes, amigos. Assim, elas conseguem entender as fases da vida e formam a lógica de pensamento, de pertencimento no mundo, a importância que aquelas datas possuem”, destaca.

 

Famílias aprovam novas formas de celebrar os rituais

A educadora física Ana Carolina Pinto Giroldo, de 35 anos, aprovou a forma como a escola da filha, Maria Luiza, de 3 anos, encontrou para celebrar os festejos juninos. Durante a semana, a família recebeu um kit para confeccionar um cartaz, que foi exposto na própria unidade de ensino. A professora da filha também preparou aulas apresentando comidas típicas, vestimentas e decoração. Depois, em um sábado, foi realizada uma comemoração no estilo drive-in. “Foi por horário marcado, cada turma tinha o seu. Chegávamos de carro, eles davam uma pipoca com um balão para cada criança e pediram para sintonizarmos em uma rádio específica e nos entregávamos o cartaz feito em casa”, explica.

Então, os carros foram estacionando de forma enfileirada e a professora de música cantava música típicas de festa junina. “Quando estavam todos os carros, eles fizeram uma quadrilha com os carros. Tinha que piscar farol, apertar buzina, seta para o lado direito, esquerdo… enfim, uma festa junina cada um no seu carro. Confesso que me surpreendeu, fiquei bem emocionada. Poder festejar, de uma maneira diferente, me deixou bem feliz”, enfatiza.

Quem também aprovou a nova forma encontrada pela escola para comemorar a festa junina é a pedagoga Tatiana Castro Gonzaga, 39 anos, que é mãe do Miguel, de 10 anos, e da Alince, de 4 anos.

“A escola pediu para que as famílias que quisessem participar caracterizassem as crianças, inclusive os demais familiares, e mandar uma foto ou, então, um vídeo de um minuto com as crianças dançando. Gravei e mandei. Então, eles fizeram a montagem com vídeos e fotos. Eu adorei participar, foi emocionante”, pontua.

 

Aniversários durante a pandemia

Mesmo que de maneira intimista e mais simples, os aniversários também devem ser celebrados pelas famílias durante esse período de isolamento social. “Mesmo diante da pandemia a vida continua e a importância das pessoas também. Dessa maneira, as pessoas vão se adaptando para que a data não passe em branco e o amor pode ser expresso através de uma homenagem”, esclarece a consultora e antropóloga do consumo Hilaine Yaccoub

De acordo com a profissional, os rituais, executados repetidamente, como comemorar aniversários, concedem uma certa segurança, além de reafirmar a importância de cada membro da família. “O aniversário significa comemorar o nascimento de um membro familiar, isso significa festejar e celebrar esse acontecimento que transformou aquela família. Todos os grupos sociais possuem acontecimentos ou eventos que consideram especiais e únicos, aniversário por exemplo é um deles, foi culturalmente construído e reproduzido em nossa sociedade”, explica.

Consciente da importância de festejar esse momento, a educadora física Ana Carolina Pinto Giroldo, de 35 anos, fará uma festa em casa para comemorar o aniversário da filha, Maria Luiza, de 3 anos. “Como estamos mantendo contato com os meus pais, eles virão, mas só eles. Aluguei uma decoração, bem pequena, mas no tema que Maria tinha pedido. Vamos fazer um bolinho, doces e cachorro quente”, conta. “Este ano não terá todo mundo, mas manteremos a tradição. Estou com um misto de sentimentos, na verdade. Feliz por poder comemorar mais um ano dela, mais triste com a situação de não ter as pessoas que gostamos perto”, completa.

 


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