A Holanda tem as crianças mais felizes do mundo.”  Foi só a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgar os resultados de um estudo sobre o bem-estar das crianças nos países mais ricos do mundo que pais e educadores voltaram seus olhos para a Holanda. Segundo a pesquisa Child well-being in rich countries – a comparative overview” que avaliou indicadores de bem-estar infantil nos 29 países mais desenvolvidos do mundo, é na Holanda que as crianças têm a melhor condição de vida do planeta.

A pesquisa foi dividida em três partes:

  1. Ranking de avaliação do bem-estar da criança, levando em conta 5 critérios: 
  • Bem-estar material
  • Saúde e segurança
  • Educação
  • Comportamento e riscos
  • Moradia e ambiente;

2. Avaliação das crianças sobre seu próprio bem-estar;

3. Avaliação da evolução do bem-estar infantil em economias avançadas ao longo da primeira década dos anos 2000, considerando os avanços na educação, índices de obesidade, uso de cigarro, álcool e drogas, entre outros indicadores.

O ranking traz a Holanda no topo, seguida de países nórdicos e usualmente reconhecidos como modelos de educação infantil, como Noruega , Islândia, Finlândia e Suécia. As quatro últimas posições do ranking de 29 lugares são ocupadas por três dos mais pobres países da pesquisa (Letônia, Lituânia e Romênia) e um dos mais ricos, Estados Unidos, aparece desconfortavelmente colocado em 26º. Vale dizer também que, além de ser a única que a estar entre os cinco países melhor qualificados em todas as categorias, a Holanda é também a nação líder quando o bem-estar é avaliado pelas próprias crianças: 95% delas afirmou estar satisfeita com sua vida. 

“O resultado dessa pesquisa não é uma surpresa para mim. É bem fácil de ver que as crianças aqui são realmente felizes e parecem muito seguras de si”, afirma a engenheira Francine Assmann,  gaúcha de Santa Cruz do Sul (RS), vive há 7 anos em Amsterdam.

Mas o que faz com que esse pequeno país europeu, conhecido pela tolerância e mentalidade aberta, pelos campos de flores, moinhos e tamancos de madeira, tenha aparecido como o melhor lugar para se criar crianças do mundo?

 

Valores holandeses

A resposta para essa intrigante pergunta, segundo as autoras do livro “The Happiest kids in the world – bringing up children the Dutch way Michele Hutchinson e Rina Mae Acosta, são muitas. Mas todas elas tem a ver com os princípios e valores daquele povo: “Os holandeses optam por tempo e não dinheiro, praticidade em vez de luxo, e acabam carregando isso para a vida:  são pragmáticos e seguros, livres das ansiedades de mostrar status”. Além disso, segundo elas, apesar de a Holanda ter uma reputação de ser liberal em relação ao sexo, drogas e álcool, a sociedade é razoavelmente conservadora, formada por pessoas que amam seus lares e que colocam a criança no centro de tudo.

Michele e Rina (uma inglesa e a outra americana, respectivamente) casaram-se com holandeses, tiveram filhos e, na Holanda, criando os pequenos, logo notaram que algo de diferente – e transformador – acontecia nos parquinhos, nas escolas e nos ambientes familiares. “Como mães americanas e inglesas, criando filhos em Amsterdam, achamos difícil não notar quão felizes  as crianças holandesas são”, afirmaram elas, em um artigo publicado no inglês The Telegraph. “Os pais holandeses têm uma atitude saudável em relação aos seus filhos, enxergando-os como indivíduos ao invés  de extensões deles mesmos. Eles compreendem que realizações e conquistas não necessariamente levam à felicidade, mas a felicidade pode cultivar as realizações.  Os holandeses controlam a ansiedade, o stress e as expectativas de serem pais e mães modernos, redefinindo o significado de sucesso e bem-estar. Para eles, o sucesso começa com felicidade – a dos seus filhos e a deles”, avaliam. 

A vida com menos ostentação, sem necessidade de ter itens de luxo, e mais brincadeira e proximidade com os pais parece também ser um dos determinantes para a felicidade das crianças na Holanda. Lá, elas brincam na rua, sem medo, com liberdade, autonomia e confiança umas nas outras e nos pais.  “A vida aqui parece mais descomplicada, e a infância parece mais simples, menos atrelada a coisas materiais. Um pai holandês nunca vai comprar um presente super caro para o filho, isso não é importante para eles. Valorizam o tempo com seus filhos: por isso, fazem cargas menores no trabalho. As crianças, por sua vez, tem liberdade, brincam muito na rua, são muita ativas, fazem muito esporte. Não consigo ver alguma coisa desse modelo que eu não admire.”

Veja alguns outros fatores que contribuem para a Holanda ter tantas crianças felizes:

Carga horária de trabalho flexível

Cargas horárias de trabalho são menores e mais flexíveis para mães  – e pais – que quiserem ficar com seus filhos meio período em casa, ou que quiserem ter um dia da semana para estar com as crianças.

 

Divisão igualitária entre pai e mãe

O tempo dedicado aos filhos é dividido igualitariamente, assim como os afazeres domésticos, entre pai e mãe, o que não sobrecarrega ou frustra nem um lado nem outro. Os pais holandeses tem papel igual na criação dos filhos e na casa: colocam os filhos na cama, brincam, cozinham, alimentam. Pais mais presentes, mães realizadas e crianças mais felizes.

 

Liberdade!

O baixo índice de violência nas ruas permite crianças a irem e voltarem sozinhas de bicicletas para a escola, brincarem sem a supervisão de adultos, irem para parques, etc. – o que confere um senso de liberdade e responsabilidade fundamentais para a educação dos pequenos. Os pais, em vez de querer protegê-los de tudo, ensinam os filhos como evitar riscos.

 

Escola sem stress

A escola, na Holanda, não é um lugar de stress, de competição e perfeição. Na escola primária, por exemplo, obrigatória desde os 4 anos de idade, as crianças não tem lição de casa para que possam usar seu tempo livre para brincar e descobrir o mundo a seu tempo e a sua maneira. O currículo acadêmico estruturado, formal,  só começa quando eles tem 6 anos, com Leitura, Redação e Matemática e não exige-se que os alunos sejam exemplares. Podem – e devem – ser apenas crianças e não se estressarem com provas e entregas de trabalho.

 

Autonomia e independência

Mães e pais holandeses estimulam que seus filhos se virem sozinhos ao máximo – e sejam autônomos nas pequenas tarefas do dia a dia, não fazendo por eles o que eles são capazes de fazer sozinhos. As tarefas e contribuição em casa começam desde cedo, com os pequenos colocando as roupas sujas no cesto, regando plantas ou até varrendo a sujeira do chão.

 

Adultos felizes, crianças felizes

Os pais têm expectativas reais e entendem que nem eles nem seus filhos são perfeitos.  São pais que vivem no mundo real, sem a pressão de serem perfeitos ou competirem com outros pais na tarefa de educar. Também têm problemas, inseguranças e dificuldades mas perdoam suas falhas mais facilmente, curtindo o prazer de criar seus filhos.

 

Brincar livremente

Na Holanda, crianças brincam espontaneamente: fazem barulho, correm,  gritam livremente sem a censura dos pais ou a cara feia dos que estão em volta. Há um senso comum de que vale mais a brincadeira com os amigos e a descoberta do mundo que sentar polida e silenciosamente.

 

Disciplina real

Pais holandeses acreditam que as crianças farão o que você faz e não o que você as manda fazer. Por isso, preocupam-se em dar bons exemplos aos filhos e dão direções bem claras quanto ao que esperam. Disciplina não é forçar seu filho a fazer algo ou disputar poder com ele com gritos e ameaças. Espera-se que eles não sejam obedientes o tempo todo, como pequenos adultos e que expressem suas opiniões quando desejarem.

 


Disciplina positiva: veja como é possível educar as crianças com gentileza e firmeza


 

A contrapartida

Mas, apesar de a lista de vantagens da educação holandesa ser grande e faça pais e mães brilharem os olhos imaginando como seria uma vida assim, nem tudo são flores e, mesmo que difícil serem encontradas, há suas falhas.   

A brasileira Elaine Morais, que mora na Holanda há 21 anos e teve seu filho lá, (hoje com 18 anos), concorda que a educação no país é exemplar, quase perfeita – não fosse por um aspecto: “Vejo a criação, aqui, como muito positiva. As crianças têm regras claras, a sociedade é igualitária, todo mundo tem acesso à escola pública e de qualidade. No entanto, vejo que o sistema tão organizado e regrado tira um pouco da espontaneidade das crianças. Tudo é muito certinho, planejado. E isso afeta, ao meu ver, a criatividade dos pequenos,  além de os tornarem menos preparados para viver fora desse lugar, longe dessas condições tão ideais – como no Brasil, por exemplo, onde as crianças adquirem mais expediente para lidar com os problemas e as situações difíceis.”

 

A realidade brasileira

A realidade brasileira, sabe-se, é bem diferente da holandesa: principalmente pela falta de segurança nas ruas, as crianças são muito mais controladas e confinadas, vivendo em ambientes sempre muito protegidos e vigiados por adultos. Então, teria como aplicarmos algumas dessas boas práticas da Holanda à educação no Brasil? Para Francine, “acho que algumas coisas podem sim ser aplicadas. A relação das crianças com coisas materiais, por exemplo: vejo o Natal no Brasil, em que as crianças ganham aquele monte de presentes. Na Holanda, ganham um ou dois e é isso. Brincam e estão felizes com isso. A  participação do pai na criação dos filhos no Brasil também pode melhorar bastante. Talvez o ponto mais difícil seja a flexibilização de trabalho, por conta da situação econômica, social, das relações de trabalho e das leis trabalhistas. A cultura, no Brasil, é de pai e mãe saírem super cedo de casa para trabalhar e voltar bem tarde da noite. Isso, aqui na Holanda, não existe.”

E você, o que acha do jeito holandês de educar as crianças? O que mais poderíamos emprestar desse modelo para a criação dos nosso filhos e alunos e fazer as nossas crianças mais felizes?

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