Antes da pandemia, quantas horas por dia seu filho e/ou filha estava na escola? E você, mãe ou pai, ficava com sua criança por quanto tempo? Na maioria dos casos, é bem provável que os baixinhos passassem mais tempo na instituição de ensino, com professores e amigos, do que em casa, com a própria família, não é mesmo? Apenas essa constatação já justifica a importância de abordar a educação sexual na escola. 

Porém, o papel da escola é ainda mais relevante. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2018, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 76% dos casos de estupro de vulnerável (quando a vítima tem menos de 14 anos), o agressor é um parente ou amigo próximo da família da criança e/ou adolescente, e na maioria das vezes o crime é cometido em ambiente familiar. 

“A escola precisa participar dessa educação sobre sexualidade, porque a criança está um bom tempo do dia dela na escola. A sexualidade tem a ver com os relacionamentos da criança, tanto a relação dela com ela mesma como a relação dela com as outras pessoas. Na escola, ela está aprendendo a respeitar o corpo dela e o corpo do outro”, explica a educadora em sexualidade Lena Vilela, que administra o perfil no Instagram @lena_vilela, onde divulga cursos para auxiliar mães e pais a abordarem a educação sexual com os filhos e filhas.

Para a profissional, abordar essa temática também na escola é uma oportunidade para ensinar sobre autoestima, respeito e confiança. “Falar de sexualidade é falar sobre os sentimentos da criança, é falar do conhecimento do corpo, é ensinar a criança a se proteger de abuso sexual, ensinar as meninas a não serem submissas e os meninos a não serem agressores”, ressalta. 

Além disso, a educação sexual escolar é uma maneira de garantir a segurança, saúde e integridade das crianças. “Temos recebido notícias de abusos que poderiam ter sido evitados se houvesse uma forma de falar no assunto sem medo e sem tabus. Tratar de educação sexual nas escolas proporcionará uma nova cultura, o esclarecimento sobre a sexualidade que nada mais é a forma de relacionar-se consigo e com os outros”, explica a sexóloga, empresária e palestrante Helen Machado Hampf.

Segundo a professora doutora Vilena Silva, que leciona biologia e meio ambiente no no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, a escola pode ser uma rede de proteção e de ajuda das crianças. “É importante tratar esse tema na escola, porque a maior parte dos abusos sexuais que ocorrem em nosso país são praticados por entes da própria família. Dessa forma, na escola a criança pode entender o que está acontecendo, aprender a se proteger, além de ser um canal seguro para denunciar o abuso”, pontua.

 

E partir de qual idade e como a escola pode ensinar educação sexual para as crianças?

As especialistas são unânimes em afirmar que a educação sexual pode ter início ainda no ensino infantil. Segundo a sexóloga Helen Machado Hampf, as crianças devem aprender sobre educação sexual desde o momento em que passam a ter condições e capacidade para conhecer e cuidar do próprio corpo. “O autocuidado é sexualidade. Isso facilitará, inclusive, o aprendizado gradual da sexualidade em todas as suas dimensões, da curiosidade sobre o corpo, as diferenças e os cuidados que se deve ter consigo mesmo e com os outros”, explica.

Professores e professoras precisam passar por capacitações para fazer a abordagem de forma esclarecedora e de acordo com a faixa etária das crianças. A escola pode optar por jogos, brincadeiras, pesquisas, trabalhos em grupo e até mesmo contratar profissionais especializados para abordarem o tema.

 “Educadores e educadoras precisam estar preparados para saber como se dá o desenvolvimento da sexualidade na infância para que possam orientar de forma adequada, sem criar traumas ou complicações para a vida dessa criança. Daí a importância de orientar e capacitar esses professores para que eles estejam preparados para lidar sobre sexualidade de forma positiva”, destaca a educadora em sexualidade Lena Vilela.

De acordo com a profissional, a escola deve cumprir seu papel de ensinar que existe abuso sexual e que os pequenos precisam estar atentos para saber identificar o ato criminoso, além de aprender a se defender e pedir ajuda de adultos confiáveis quando acontecer algo suspeito. “Falar de sexualidade é prepará-los para essa vida”, destaca.

Por isso, para que as crianças compreendam a importância do assunto, professores precisam ser específicos com os alunos e alunas. “Uma vez uma mãe disse que se algum amiguinho do outro filho fizesse uma brincadeira que a filha não gostasse, a menina não deveria deixar o colega brincar com ela. Eu disse para a mãe que ela não estava ensinando a garota a se defender. Ela tinha que dizer exatamente o que o amiguinho não poderia fazer, onde ele não pode tocar e menina tinha que fazer se isso acontecesse. A gente precisa ser claro e específico”, exemplifica.

A profissional ainda ressalta que, tanto professores quanto mães e pais, jamais devem mentir para a criança, pois se ela descobrir a verdade, perderá a confiança nessa pessoa. “A criança precisa aprender a confiar na gente, e esse ponto de não mentir é primordial. Você pode até dizer que não sabe a resposta, que está incomodado em responder ou que vai pedir para uma outra pessoa explicar. Mas mentir não é um caminho”, orienta.


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