Esqueça aquele antigo formato de educar os filhos, onde as crianças eram apenas espectadoras do seu processo de desenvolvimento, não tinham a liberdade de expressar opiniões, necessidades próprias e muito menos de participar de decisões. Agora, cada vez mais pais, mães, cuidadores e educadores buscam incentivar o protagonismo infantil que, nada mais é do que enxergar os pequenos como indivíduos capazes de participarem ativamente de cada fase da sua aprendizagem.

“Protagonismo infantil é colocar a criança no centro do processo de aprendizagem, ativa na tomada de decisões, com liberdade para brincar e se desenvolver, envolvida em sua autonomia e responsabilidade. É tirar a criança do papel de espectadora e colocá-la como autora de sua história. É entender que a criança pode contribuir com suas ideias e opiniões, é jamais subestimá-las”, explica a pedagoga e educadora física Flávia Cavalcante de Carvalho Silva, que é especialista e mestranda em Educação e coordenadora pedagógica na rede privada e administra a página “Território de Aprendizagem na Primeira Infância” no Facebook e Instagram. 

Porém, pensar no protagonismo da criança é um exercício diário, que exige refletir sobre o relacionamento com os baixinhos. Afinal, é fundamental acreditar no potencial da criança e jamais menosprezar seus saberes, assim como abandonar comportamentos autoritários que possam ser praticados no processo de educação e deixar de julgar os pequenos como seres submissos às ordens e comandos dos adultos.

“Eu vejo o protagonismo infantil como a descoberta do sujeito. O sujeito precisa ser autor dos seus sonhos, suas verdades e caminhar para conquistá-las. Protagonizar é oportunizar o fazer, o pôr em prática”, acrescenta a assessora escolar Manuela Moraes, que é cocriadora da Natureza em Cores Rio de Janeiro.

 

Qual a importância de crianças protagonistas

Mas, afinal, quais os benefícios em incentivar o protagonismo infantil? “Sendo protagonista, a criança desenvolve a autonomia, autoconhecimento, autoestima, produtividade, habilidades de convivência, respeito ao próximo e resolução de problemas”, pontua a psicopedagoga Patrícia Pereira de Souza, que é sócia-proprietária e diretora da Oficina Criar e Brincar.

Para a pedagoga Flávia Cavalcante de Carvalho Silva, uma criança protagonista da sua história será um adulto com mais habilidades emocionais. “A criança que vivencia um protagonismo é encorajada a resolver conflitos, aprende a pensar, tomar decisões, desenvolve senso de cidadania e responsabilidade social. Quando adulta, terá maior controle de habilidades socioemocionais, empatia e proatividade”, ressalta.

Porém, fica a dúvida: como pais e mães podem identificar o protagonismo nos filhos? Nesse sentido, a assessora escolar Manuela Moraes destaca que, para cada fase, deve ser dado uma tarefa pertinente que a criança possa desfrutar sua autonomia. “É preciso entender que os filhos são sujeitos potenciais e que estão vivenciando fases de construção de conhecimento. A primeira infância é reveladora, o auge de captar um mundo de descobertas. Vejo que muitos pais que têm medo de soltar seus filhos até mesmo dentro de casa. A casa é uma bolha, onde suas crianças são inquebráveis, são super protegidas! Há famílias que, na espera dos seus bebês, tiram tudo de suas casas, acreditando que há perigos eminentes, transformando o lar numa ‘bolha de proteção”, afirma.

A profissional reforça ainda que o medo e/ou a insegurança de dar liberdade aos filhos, além de não atribuir tarefas que auxiliem sua autonomia, não colaboram para as descobertas da criança. “Durante o passeio, bebês de colo estão em carrinhos virados para os pais, ou no colo, no sling, mas não para o movimento das ruas. Crianças não caminham, passeiam de carro!”, exemplifica.

 

Como desenvolver o protagonismo em casa e na escola?

Segundo psicopedagoga Patrícia Pereira de Souza, o primeiro passo é acolher e escutar ativamente a criança. “É possível incentivar o protagonismo dentro de casa através do acolhimento e escuta, atendendo as verdadeiras necessidades das crianças. Mas os pais também devem promover momentos que despertem a curiosidade e a vontade de descobrir coisas por si mesma; ajudando-as a compreender seus direitos e deveres”, orienta.  

A pedagoga Flávia Cavalcante de Carvalho Silva recomenda incentivar o respeito às diferenças, à empatia e a busca por uma sociedade mais justa. “Na prática, deixar a criança separar o lixo reciclável do orgânico, aguar as plantas, guardar os brinquedos, ajudar irmãos mais novos em pequenas tarefas, separar roupas para serem doadas, ensinar não desperdiçar alimentos e, que tal, deixar que leiam uma história para os pais na hora de dormir? Seria o máximo!”, exemplifica. 

Quanto ao protagonismo infantil na escola, a assessora escolar Manuela Moraes acredita que as instituições de ensino precisam rever as metodologias utilizadas. “As crianças de hoje não são crianças de 10 anos atrás. Vejo muitos projetos políticos pedagógicos que não foram desengavetados ou revisado. As escolas criam muitas expectativas nos projetos iniciais e inibem as ações das crianças. Muitas das vezes, percebo em salas de aula, que outros assuntos que são realmente vivenciados pelas crianças fazem mais sentidos, daqueles impostos a serem trabalhados pela escola”, argumenta.

De acordo com a profissional, o brincar, que é um dos direitos de aprendizagens garantidos pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular), é uma das formas de desenvolver o protagonismo. “Os professores precisam se libertar de suas ‘amarras’. O brincar é revelador! Através do brincar genuíno, percebo o protagonismo infantil, aquele não ditado pelo adulto e tendo o espaço como educador. Vejo crianças formando diferentes tipos de parcerias, transpondo vivências familiares, trabalhando suas percepções cinestésicas e vestibulares, ampliando suas criatividades, organizando ideias centrais, ressignificando novas formas de brincar, sendo mais ouvintes e expondo com mais clareza seus desejos, ampliando sua criatividade”, enfatiza.

Para Flávia, é imprescindível que os educadores entendam a criança como um ser ativo e capaz de escrever sua própria história. “Os educadores não devem nunca cansar de escutá-la. Dar abertura para que se expressem em diferentes contextos, por exemplo, deixá-las participar da construção dos combinados da sala (também conhecidas como regras de convivência), ao invés de trazer esses combinados prontos; questioná-las quais combinados são necessários e deixá-las decidir quais serão. Desenvolver atividades e projetos a partir do interesse dos alunos é respeitá-los como sujeitos e garantir seus direitos”, recomenda.

Contudo, além de incentivar o protagonismo da criança em casa e na escola, Manuela lembra que o contato com a natureza e atividades ao ar livre também são importantes nessa trajetória. “O contato com natureza, através dos seus elementos, oferece as possibilidades de pesquisa/investigação, experimentação, leitura/interpretação, criação, ressignificação. Para tanto, o primeiro exercício a ser feito é olhar a criança como sujeito de grande potencial, sendo o adulto ouvinte e mediador de conhecimentos. Tempo, escuta e sensibilidade são palavras chaves para uma infância saudável”, completa.

Dica de leitura

Para pais, mães, cuidadores e educadores que desejam se aprofundar sobre tema, uma dica de leitura é o livro “Lugar da criança na escola e na família: a participação e o protagonismo infantil”, dos organizadores Altino José Martins Filho e Leni Vieira Dornelles. Na obra, pensadores da infância do Brasil e de Portugal apresentam estudos que revelam a importância das crianças serem as próprias produtoras de cultura, além de mostrar para a sociedade a importância das brincadeiras, das linguagens e da forma dos pequenos se expressarem.

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