O maior desenvolvimento de um indivíduo ocorre justamente na infância, que é o período compreendido do nascimento de um bebê até completar seus 12 anos. É durante as fases da infância que acontece um marcante ganho de volume do corpo, além de aquisições de habilidades básicas, como andar e falar, e a construção da personalidade.

A médica neurologista da infância e adolescência Jeania Christielis Damasceno de Souza, ressalta que as fases da infância precisam ser compreendidas não apenas pelo crescimento físico, mas também pelo desenvolvimento cognitivo e psicossocial. 

“Quando nos referimos ao desenvolvimento físico, queremos explicar as mudanças corporais que são observadas enquanto nossos filhos crescem. O desenvolvimento cognitivo se refere às funções cerebrais como linguagem, pensamento, raciocínio e memória, e é importante saber que o desenvolvimento das várias áreas cerebrais é um processo de amadurecimento e que conforme a idade elas vão se interconectando e se integrando. E o desenvolvimento psicossocial se refere às questões de construção das relações sociais, à personalidade e às emoções do indivíduo”, pontua.

De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Luciana Caldas, as fases da infância são caracterizadas por faixa etária como uma forma de ter referência nos avanços e retrocessos da criança, dentro do que é esperado em cada idade. Entretanto, Luciana afirma que o processo de desenvolvimento infantil está relacionado às condições biológicas, ambientais e de interação vivenciadas pela criança ao longo da sua infância. 

“Como leva em conta esses variados fatores, assume um caráter muito individual, ou seja, cada criança se desenvolve à sua maneira, de acordo com a relação desses aspectos que vão proporcionando mudanças graduais e sucessivas na sua estrutura biopsicossocial”, completa.

 

Conheça cada fase e sua importância no desenvolvimento infantil

Geralmente, a classificação dos períodos da infância varia de um autor para outro, dependendo da corrente de pensamento que segue cada pesquisador. Porém, uma das vertentes amplamente conhecida e discutida é de Jean Piaget, um dos maiores pensadores do século XX. 

“Do ponto de vista pedagógico e com bases no Jean Piaget, grande pesquisador das fases do desenvolvimento infantil, são quatro as fases: o sensório motor, que acontece de 0 a 2 anos; o pré-operatório que abrange dos 2 aos 7 anos; o  operatório concreto, que envolve as crianças dos 8 aos 12 anos de idade; e o operatório formal, que tem início aos 12 anos”, explica a pedagoga Marília Frassetto de Araújo, mestre em educação escolar, criadora de conteúdo no perfil @conexao.crianca, no Instagram.

Nesse contexto, médica neurologista da infância e adolescência Jeania Christielis Damasceno de Souza afirma que do nascimento até os 2 anos, os bebês estão em um estágio sensório motor em que é observado um intenso desenvolvimento nos movimentos corporais. 

“Dos 2 aos 7 anos as crianças estão em uma fase chamada de pré-operatória ou simbólica. Nesta idade, o grande salto de desenvolvimento é a linguagem, e muitos pais vão perceber também que nessa fase as crianças podem parecer egocêntricas e, ao mesmo tempo, gostam de usar a imaginação”, explica.

Já dos 7 aos 12 anos, as crianças estão em um estágio chamado de operatório concreto, em que conseguem estabelecer relações em diferentes pontos de vista de maneira lógica. “Nesta fase, o mais interessante é observar que as crianças conseguem realizar operações mentais”, ressalta.

Então, a partir dos 12 anos entraram na fase chamada de período das operações formais. Começa, aqui, a adolescência, onde conseguem construir valores morais e pensam de modo mais intuitivo. 

 


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Mas porque você deve conhecer cada fase da infância?

Entre tantas demandas necessárias para criar um filho, você pode estar se perguntando porque é importante entender esses períodos, não é mesmo?

Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Luciana Caldas, conhecer essas fases e o que é esperado para cada uma delas permite notar quando há algum processo que está aquém do esperado, o que pode levar a intervenções específicas para favorecer o desenvolvimento saudável da criança. Além disso, detectar atrasos ou até mesmo patologias precocemente pode possibilitar um melhor prognóstico.

“Por exemplo, uma criança de 18 meses que não compreende comandos verbais simples e não usa gestos ou palavras para se expressar apresenta atraso de linguagem. Conhecer esse padrão de respostas inadequadas para a idade pode levar o adulto a buscar ajuda especializada”, explica.

Apesar de existirem os marcos de desenvolvimento, a pedagoga Marília Frassetto de Araújo acredita que cada criança tem o seu tempo. “Não é porque a criança fez 1 ano que ela acorda sabendo falar ou andar. Então, é preciso estimular e observar o desenvolvimento no dia a dia”, afirma.

Por outro lado, a médica neurologista Jeania Christielis Damasceno de Souza também afirma que, conhecendo cada etapa, permite aos pais, mães e cuidadores oferecerem mais estímulos, proporcionando melhores experiências de aprendizado. 

“Assim como conseguem construir com os filhos um espaço familiar acolhedor, em que o adulto é capaz de compreender os pensamentos e sentimentos da criança, garantindo um vínculo seguro, o que é fantástico para a construção de indivíduos mais autônomos”, enfatiza.

 

Como incentivar o desenvolvimento em cada etapa?

Segundo a pedagoga Marília Frassetto de Araújo, pais e mães podem auxiliar o desenvolvimento em cada fase da infância brincando junto com as crianças, tanto dentro quanto fora de casa, além de ler diariamente para os pequenos. Mesmo que a criança ainda não fale, é importante que os pais conversem, nomeiem tudo o que está acontecendo. Por exemplo: ‘agora você vai tomar um banho quentinho na banheira. Eu estou lavando seu cabelo… ‘ e, assim, a criança vai aprendendo e também o vínculo vai sendo fortalecido”, recomenda.

A psicóloga e neuropsicóloga Luciana Caldas ainda orienta proporcionar uma interação saudável e funcional da criança com o ambiente, com os estímulos e com as outras pessoas. “Estimule a usar seu corpo, explorar os recursos, se expressar, incitar seus sentidos e vivenciar sua inserção no mundo com as infinitas e complexas possibilidades”, ressalta.

Já a médica neurologista Jeania Christielis Damasceno de Souza lembra ainda que é necessário ter cautela ao orientar os pais, para que não atropelem com a sua ansiedade, seus desejos e anseios, o desenvolvimento dos filhos.

“Estimular o cérebro potencializa suas aptidões, mas esse processo tem que ser prazeroso e motivador. Se os pais desejam ter filhos inteligentes, permitam que brinquem e brinquem com eles, isso fará com que aprendam habilidades que poderão ser usadas na vida prática”, explica.

 

E quando a criança não corresponde ao esperado em determinada fase?

A psicóloga e neuropsicóloga Luciana Caldas enfatiza que é importante ter avaliação profissional quando for verificada a incompatibilidade entre o nível de desempenho da criança, a idade cronológica e o que é esperado de acordo com os marcos do desenvolvimento. 

Quem compartilha da mesma opinião é a médica neurologista Jeania Christielis Damasceno de Souza. “Não recomendo o que muitos ainda dizem: ‘vamos aguardar o tempo da criança’. Pois esse tempo deve respeitar os limites pré-definidos da idade máxima de aquisição de cada marco, conforme escalas já bem validadas pela ciência e que devem ser usadas no acompanhamento dos pequenos, principalmente pelo pediatra”, esclarece.

A médica ainda traz outra orientação. “Se os pais percebem que as crianças mudaram de comportamento ou apresentam comportamentos inadequados em todos os ambientes que frequentam também pode ser necessário investigação”, completa. 


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