Engana-se quem acredita que o consumismo infantil esteja relacionado com gênero, nacionalidade ou poder aquisitivo. Apesar de ninguém “nascer consumista”, esse hábito passou a ser uma característica cultural marcante na atualidade. Quase sempre a criança é levada a ser consumista por conta do exemplo de seus cuidadores”, afirma a psicoterapeuta Mônica Pessanha.

Para se ter uma ideia, de acordo com o site Criança e Consumo, no Brasil as crianças têm influência em até 80% nas decisões de compra de uma família. Os pequenos chegam a opinar sobre a aquisição de carros, eletrodomésticos, alimentação e vestimentas. 

Porém, a relação entre criança e consumo não fica restrita apenas aos pequenos se espelharem nos adultos. Segundo a profissional,  a publicidade na televisão e na internet são as principais ferramentas do mercado brasileiro para o convencimento do público infantil. Assim, cada vez mais cedo os baixinhos são convidados a “experimentarem” o universo adulto.

Números da pesquisa Ibope Mídia mostram que, só em 2013, foram movimentados aproximadamente R$ 112 bilhões com publicidade infantil. Ainda segundo a pesquisa, a TV representa 70% desse investimento, ocupando a posição de principal mídia utilizada para publicidade volta às crianças.

E, tendo em vista que as crianças brasileiras ficam até cinco horas e meia, diariamente, assistindo televisão, conforme publicou o Ibope em 2015, no estudo Painel Nacional de Televisores, não há como negar o grande o impacto da publicidade ainda na infância. 

“Por estarem vivendo uma fase peculiar do desenvolvimento, podem sofrer graves consequências relacionadas aos excessos do consumismo, como obesidade infantil, erotização precoce, consumo precoce do tabaco e álcool, estresse familiar, banalização da agressividade e violência e falta de pensamento crítico”, lista a psicóloga comportamental Ana Carolina Feltrin.

 


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Ainda sobre os malefícios da relação entre crianças e consumo, a profissional ressalta que a criança passa a se comportar cada vez mais de maneira “adultizada”, deixando de brincar, criar e usar a imaginação. Por isso, é necessário que o consumo infantil seja evitado.

“A mídia atual passa uma imagem de que para ser feliz e incluído é preciso adquirir aquele brinquedo,  aquela roupa ou comer determinada comida. A criança, portanto, passa a acreditar que precisa daqueles objetos para ser inserido em um grupo. É neste momento em que os excessos ocorrem e que a formação de pensamento crítico é prejudicado”, explica.

A lei da propaganda infantil 

Em março de 2014, foi aprovada por unanimidade a Resolução nº 163 do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), que considera abusiva a publicidade e a comunicação mercadológica voltada à criança, especificamente se a prática utiliza linguagem infantil, ou traz celebridades com apelo ao público infantil, além de personagens ou apresentadores infantis.

Em 2017, uma pesquisa divulgada pelo The Economist Intelligence Unit divulgou que empresas que vendiam produtos e serviços para crianças tiveram queda de 13% na receita depois da aprovação da resolução. 

Vale destacar ainda que o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), com base no artigo 37 do CDC (Código de Defesa do Consumidor), é contrário a qualquer propaganda dirigida aos pequenos, pois também considera a publicidade direcionada ao público infantil como abusiva. O instituto acredita que o mercado se aproveita de um público mais vulnerável e com facilidade de ser persuadido.

Para a psicoterapeuta Mônica Pessanha, a lei da propaganda infantil tem gerado impactos positivos, porém, ela acredita que a família e a escola devem ter um maior engajamento para ensinar as crianças sobre o que é consumo consciente. “Nosso desafio também precisa estar voltado para o presentinho da padaria, da banca e das lanchonetes, o que pode gerar uma ansiedade nas crianças. Elas passam a contar os dias pelas figurinhas, pelos carrinhos e passam a colocar o foco naquilo que querem, no que desejam e não mais no que possuem”, afirma.

A profissional ressalta que é necessário estar atento as propagandas que as crianças assistem, porém, é necessário auxiliar os pequenos a entenderem sobre a importância do consumo consciente.

 

O que é consumo consciente

Segundo a psicóloga comportamental Ana Carolina Feltrin, o primeiro passo para compreender o que é consumo consciente é entender que o ato de consumir traz diversas consequências. Mais do que afetar o momento da compra, interfere também no meio ambiente e na economia. 

“Por isso, é importante refletir sobre nossos hábitos de consumo e a necessidade deste, e assim, identificar os impactos dessa compra. Mas você não vai ensinar isso para uma criança. A partir do ‘não’, você vai ensiná-la a lidar com frustrações e que ela não precisa ter tudo aquilo que ela deseja. É assim que se dá os primeiros passos para o aprendizado de um hábito de consumo consciente”, argumenta.

A psicoterapeuta Mônica Pessanha acredita que a criança que desde cedo recebe incentivos para a prática de um consumo saudável, será um adulto com mais autonomia diante das ofertas e, sendo assim, capaz de fazer boas escolas. “Quando ensinamos o consumo consciente para as crianças, basicamente ensinamos a elas que não precisamos comprar coisas para nos sentirmos felizes; nós vivemos de acordo com nossos meios/ganhos; e que passar tempo com as pessoas é mais importante que substituir ausências com coisas”, destaca.

 


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Mônica ainda alerta sobre a relação que os passeios com crianças em shopping podem ter uma relação direta com o consumismo, caso os adultos não estejam conscientes dos próprios hábitos. “Não estou dizendo que os pais devem evitar ou que não devam ir a shoppings com os filhos. No entanto, se todas as vezes que vamos ao shopping, a criança volta com um sapato novo, um brinquedo novo, uma roupa nova, talvez estejamos dando uma mensagem contrário ao do consumo consciente. Óbvio que a criança pode levar um brinquedo novo pra casa, mas não precisa ser todas as vezes que vai ao shopping com os pais”, recomenda.

 

Exercitando a consciência

Outra forma de ensinar aos filhos e filhas sobre o consumo consciente é incentivá-los a participar de feiras de trocas de brinquedos. Mais do que proporcionarem interação entre as crianças, essas atividades são ótimas oportunidades para promover uma reflexão quanto ao apelo do consumo na infância e, ainda, auxilia na fomentação da mudança de hábitos.

O Instituto Alana, uma organização sem fins lucrativos, é responsável por realizar diversas feiras em todo o país. As datas, locais e horários dos eventos estão disponíveis no site: https://feiradetrocas.com.br/

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